ilustra andre macaco
Arte: André Bonani

Querida amorinha,

Papai definitivamente não gosta de mentir para você. Juro! Evito mentiras ao máximo. Na realidade, prefiro o caminho do “omitir”. Às vezes, o mundo é duro e considero muito cedo para algumas verdades absolutamente cruéis. Portanto, omito “pequenos detalhes” e assim, pelo menos por enquanto, garanto seu sono e inocência.

Trilha sugerida:

Ontem, assistíamos à televisão. Era tardão da noite e você relutava em dormir. Eu não aguentava mais o “Charlie e a Lola” e mudei para um desses programas de mundo animal, natureza, essa coisa toda, sabe? Funcionou.

Na tela, gorilas gigantes e fofos brincavam em família enquanto um narrador explicava um pouco sobre como eles vivem e se organizam. Você pirou com os macacões. Pulava, gritava, imitava. Percebeu os filhotinhos brincando com os pais e disse que éramos eu e você. Uma alegria só.

Até que um macaquinho de outra espécie – umas seis vezes menor que os outros – apareceu. Do nada a trilha sonora mudou. E aquilo que era um sonho feliz virou um filme aterrorizante. Os gorilões não perdoaram. Cercaram o bichinho – enquanto eu procurava desesperadamente o controle remoto – e o estraçalharam. O simpático macaquinho agora era esmigalhado e repartido pelos gorilas que o devoravam. Eu atordoado pulava na frente da tv imitando um macacão “uh uh – ah ah” para distrair sua atenção. Deu certo, você pulou no meu colo e ignorou o que se passava na tv. Eu ainda reparei que após alimentarem os filhotes com os restos do corpo do macaquinho, um casal de gorilas protagonizou um sexo (literalmente) selvagem. Enfim, consegui mudar de canal e omiti todo aquele espetáculo. Os macacos seguiram fofinhos e você ilesa, com seu sono garantido.

No dia seguinte, ainda com a imagem do macaquinho devorado na cabeça, fomos à padaria. No portão do prédio, encontramos com a dona Odélia entrando. Seguro a porta para ela passar e desejo bom dia. Ela retribui. E você a interrompe brava, “Ela vai entrar em casa, papai! Não quero ela na minha casa, papai! Não deixa!”. Eu te explico que muita gente mora no prédio. Somos uma comunidade. Todos morando no mesmo local, todos amiguinhos, eu digo. Uma grande comunidade hippie e feliz. Você pergunta, “Que nem os macacos?”

E nesse momento penso na reunião de condomínio. A dona Odélia virando onça por uma vaga na garagem. O casal do 15 urrando com os velhinhos do 134 por discordarem sobre o periquito do 201. Penso na síndica querendo multar os meninos do 208 por barulho. Os berros, a grosseria, um devorando o outro por mesquinharias da vida adulta.
É, igualzinho aos macacos, meu amor. Igualzinho. E omito a selvageria das reuniões de condomínio. Assim, uma vez mais, garanto seu sono.

Nesse final de semana, iremos votar para prefeito da cidade, minha formiguinha. Te explico como funciona o esquema: é a festa da democracia. O momento de sermos ouvidos. De escolhermos quem é o melhor representante, o mais preparado, para cuidar dos interesses da cidade, do povo. Uma coisa linda. A voz do povo é a voz de Deus, macaquinha! Iremos exercer nossos direitos! Seremos ouvidos! O futuro e o destino do país está em nossas mãos. Depende de nós!

Omito que, até o momento, os candidatos que lideram as pesquisas são João Doria e Celso Russomano.
E assim, por enquanto, garanto teu sono. E perco o meu.

Amor anárquico,
Papai.

29.09.16