andre ilustra penico
Arte: André Bonani

Seu primeiro dia de maldade.
Primeira balada com azmiguinha, os boyzinhomagia e toda a patota da escola. Primeira festa de alguém fora do círculo social do papai e da mamãe. O role só seu.

Dia de maldade. Dia de comer brigadeiro até dar dor de barriga e não escovar o dente. Dia de lambuzar a chupeta no chocolate e deixar a empada cair no chão e mandar pra dentro assim mesmo. Dia de subir no escorregador sem pegar no corrimão e descer de barriga e cabeça pra baixo. Dia de se perder na piscina de bolinha. De não ter medo de altura e ter do palhaço. Dia de cantar parabéns pra si mesma e chorar quando os outros não te acompanham. Dia de lutar até o fim pelo primeiro pedaço e, novamente, chorar quando não conseguir. Dia de puxar o cabelo das inimiguinhas. De fazer cocô durante e logo após o banho. Dia de comer tudo que não pode, roubar o celular da mamãe, esconder a carteira do papai e chorar pelo prazer de chorar. Dia de passar o batom da vovó na boca, bochecha, nariz, lençóis, sofá e paredes. Dia de bombar o Palavra Cantada no talo. Dia de encher a bolsa da mamãe com doces, lembrancinhas e balas de coco. Dia de capotar na horizontal na cama do papai e da mamãe e chutar a noite inteira.

Trilha sugerida:

E dia do papai perder tudo isso, pois está de plantão trabalhando durante todo final de semana. Pensando nisso, nas maldades perdidas, minha pequena, decido:
Não vou mais bater cartão nessa minha puta vida. Não vou abandonar sonhos em troca de trocados-paga-contas. Só vou fazer o que dá tesão. Vou arrumar um trabalho em que possa te ver crescer e ter todos os dias de maldade que puder. Amanhã mesmo entro lá na redação e resolvo essa história. Chega de exploração, agora todo dia será de maldade!

A convicção e os passos firmes somem no instante em que entro na farmácia e vejo o preço do pacote de fraldas. Cinquenta conto. Isso mesmo. Mais de cinquenta golpitos por um pacote com, sei lá, 34 fraldas (Ok, trata-se de uma farmácia particularmente cara, mas ainda assim). É mais de um real por fralda. Mesmo parando de fumar, e eventualmente de comer, não tem economia que comporte. A matemática é cruel, e decido ignorar qualquer sonho, qualquer maldade. Pelo menos por enquanto, adeus dias de maldades.

E chega um email avisando: semana que vem vai rolar o Sarau da escolinha e pintou a ideia de eu ir e ler uma dessas crônicas aqui. Achei o plano divertidíssimo. Um dia de maldade literária infanto-juvenil. Dia de ler meus próprios textos, dia de ser autorreferente, dia de…opa, nada disso. Adivinha? Novamente, dia de plantão.

Penso em todos os dias de maldade que perderei. Penso no preço das fraldas. Penso que, em breve, seus dias de maldade não contarão com a presença do papai aqui. Penso no preço das fraldas. Penso que essa é a melhor fase da vida e que estar com você é minha coisa favorita. Penso no preço das fraldas e resolvo:

Chegou a hora, compraremos um penico.

Amor,
Papai.
22.09.16

PS: Essa crônica é só brincadeirinha, pequena. Como sempre, apenas ficção. Você não tem absolutamente nenhuma culpa de eu abandonar meus sonhos.Já tinha abandonado faz tempo, bem antes de você nascer.

PS2: brincadeirinha novamente, pequena. Acredite nos seus sonhos, tá? Nem que seja apenas pelo prazer de sonhar.

PS3: preciso dizer que a sempre genial Vanessa Barbara já fez (aqui, nesse mesmo Estadão) uma crônica divertidíssima sobre o Dia de Maldade Super vale ler. Como jamais faria algo tão massa, dei uma mudada na ideia original do texto aqui.