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Arte: André Bonani

-Nossa, amor, hoje tá foda. Não tô conseguindo escrever. Muita coisa acontecendo. Ideias mil rolando e não consigo escolher qual caminho seguir. Uma dificuldade tremenda em ligar os pontos, sabe?
-É, tem dias que é difícil mesmo. Você podia lavar umas mamadeiras, a louça, arrumar a bagunça na sala que ela deixou. Talvez ajude a clarear essa crônica, né?

Trilha sonora:

Está chegando a primavera e você acordou com conjuntivite.
Amoras borram o chão onde pessoas correm entre os carros.
Aquarius é um filme lindo e ficou fora da disputa pelo Oscar. O filme escolhido para representar o Brasil eu não lembro o nome (não foi lançado ainda).
Candidatos políticos vomitam groselhas por todos os cantos do país.
A tia Maíla foi embora do Brasil, mas antes te ensinou a música do pezinho e nos deixou sua vitrola.
Na vitrola, você conheceu os Saltimbancos e aprendeu que “Todos juntos somos fortes. Somos flecha e somos arco. Todos nós no mesmo barco. Não há nada pra temer”.
Eu comprei um vinil do Taiguara, inspirado pelo Aquarius, talvez.
O Cunha caiu, negou fazer delação e prometeu lançar um livro.
Um espetáculo de power point apontou o Lula como chefão de todo um esquema de corrupção.
Ao final de toda sessão de Aquarius as pessoas gritam emocionadas “Fora, Temer”.
Aqui, a vitrola parece nos trazer beleza, segurança e força. Nos lembra que a primavera está chegando.
Sua conjuntivite agora atinge os dois olhinhos e você é só alegria por faltar na escola.
Queria estar com conjuntivite, e assim – remelento, sem enxergar direito – dançarmos a primavera o dia todo, todo dia.

A louça eu lavei. Mas a bagunça na sala segue cada vez maior.

Amor,
Papai.
15.09.16