Este texto é dedicado à jornalista Camila Molina. Que privilégio ter tido Camila como amiga. Que tristeza tê-la tido como amiga por tão pouco tempo

 

O doce sorriso de Camila. Foto: Acervo pessoal

 

Eu nunca tinha falado ‘eu te amo’ para um amigo ou uma amiga, apesar de ter esse sentimento por eles. Tenho poucos e queridos amigos, e isso já me basta. Amo todos. Mas talvez eu nunca tenha dito isso para eles, com essas palavras.

Para a Camila, uma das minhas grandes amigas desta vida (e certamente das passadas e futuras), eu falei. Senti vontade que ela soubesse. E isso tem a ver com afeto, carinho, irmandade. Daquelas relações que você constrói com pessoas que não são da sua família, mas acabam se tornando um pouco sua irmã, seu irmão, sua segunda mãe ou seu segundo pai.

Nos conhecemos na redação do Estado no começo dos anos 2000. O coleguismo do dia a dia se transformou em amizade sincera, leve, faceira. Camila era linda, jovem, talentosa, generosa. Zero defeitos, como se graceja nas redes sociais.

Ela lutava contra um câncer e senti, a dado momento, que eu a estava perdendo. Há tempos, eu não falava com ela. No período do tratamento, Camila decidiu se recolher e se aninhou no aconchego de sua família. Não queria ver ninguém. Respeitei, claro, mesmo que com dor no coração.

Há alguns meses, pedi para a querida Carmen, irmã da Camila, que falasse para ela que eu a amava. Sei que Carmen passou minha declaração de amor adiante, mas, melhor pecar pelo excesso, mandei uma mensagem para ela pelo Instagram, que foi visualizada. Espero que tenha sido ela própria que tenha visto.

O amor é aquele sentimento inexplicável, que tantos grandes poetas tentaram definir, e que nos traz imensas alegrias e tristezas. Nossa amizade me deu muitas alegrias e uma só tristeza: Camila partiu na sexta-feira passada, dia 18, aos 38 anos.

E quando a notícia devastadora de sua morte chegou a mim, um filme de mais de 15 anos de amizade passou pela minha cabeça. Os shows que assistimos juntas, as músicas que gostávamos, as risadas que compartilhamos, as doideiras que falávamos.

Mas lembro também das promessas que fizemos e não cumprimos, como irmos juntas à Bienal (Camila era uma grande especialista em artes visuais),  passear por Londres juntas (e ir na Tate Modern!), entre outras tantas. No entanto, me consola saber que encontramos tempo de irmos às sessões de cinema na Augusta, ao MAM, de sairmos juntas. Enfim, de sermos amigas de verdade. E que alegria relembrar de seu sorriso doce e de seus olhos brilhando enquanto ela assistia aos shows de Radiohead (e o impagável air guitar que ela fazia em Creep), Chico Buarque, New Order, Baby do Brasil…

Sei que vou me lembrar dela em cada museu ou exposição que eu visitar em qualquer lugar do mundo, ou quando eu entrar no Instituto Tomie Ohtake ou na Pina, que eu brincava que era sua segunda casa, porque ela estava sempre lá para fazer alguma reportagem.

Que privilégio ter tido Camila como amiga. Que tristeza tê-la tido como amiga por tão pouco tempo. Mas fico feliz em saber que ela sabia que eu a amava. Na verdade, acho que ela já sabia disso antes mesmo de eu falar com todas as palavras ‘Eu te amo’.

Obrigada pela amizade maravilhosa que tivemos. E se restou alguma dúvida – P.S. Eu te amo.