Sayda Fabiola Alarcon, 31, integra o projeto “Empoderando Refugiadas”, que tem como objetivo oferecer cursos, workshops e orientação profissional para que mulheres sejam inseridas no mercado de trabalho, recobrem sua dignidade e autoestima

Do outro lado da linha telefônica uma voz com forte sotaque espanhol, respostas curtas e objetivas. A conversa era com Sayda Fabiola Alarcon, 31 anos, natural da Colômbia e que está no Brasil há um ano e oito meses como refugiada. Na verdade, ela está como solicitante de refúgio, sua situação ainda está em análise. Antes de chegar em terras brasileiras, Sayda fez uma pequena peregrinação pela América do Sul, passando pelo Equador, Peru e Bolívia.

Tudo isso porque, em Cali, cidade onde vivia, se envolveu com um homem que pertencia a um cartel. Quando Sayda decidiu colocar fim na relação ele a ameaçou de morte. “Logo depois que ele me ameaçou decidi fugir, pois sabia que se ficasse ele me mataria mesmo”. Atualmente, é casada com um africano de Mali, também refugiado, e, juntos, têm uma filha. Sua mãe e mais três irmãs vivem na Espanha, para onde já pensou em ir, porém o companheiro não quer autorizar a saída da filha do Brasil.

A história de Sayda entra nas estatísticas da Agência das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR), que aponta como um dos principais motivos que levam mulheres a pedir asilo em outros países a Violência Sexual e de Gênero (SGBV). Conforme relatórios da entidade sobre Idade, Gênero e Diversidade (2015), constata-se que mulheres em vários contextos continuam a sofrer grandes níveis de SGBV em razão de diferentes causas, dentre elas, a desigualdade de gênero.

Sayda e sua filha Frida Sophia

Sayda e sua filha Frida Sophia

No Brasil, de acordo com dados mais recentes do Comitê Nacional para Refugiados (CONARE), do Ministério da Justiça, 28,2% dos 8.863 estrangeiros reconhecidos como refugiados (até abril de 2016) são mulheres. Entre os solicitantes de refúgio este percentual é de 19,2%.

“Um dos principais desafios é assegurar o acesso de mulheres à proteção internacional com enfoque diferenciado de gênero, idade e diversidade, em um contexto de recrudescimento das políticas migratórias no mundo.  Além disso, mulheres são vulneráveis à violência sexual e de gênero, e também à exploração laboral e/ou sexual ao longo de toda sua trajetória de deslocamento forçado”, explica Luiz Fernando Godinho, porta-voz do ACNUR no Brasil.

Segundo relatório mais recente da agência, o Global Trends – Forced Displacement in 2015, 65,3 milhões de pessoas encontram-se no mundo deslocadas por razões de guerra. “Obtivemos dados desagregados por sexo para 29,3 milhões, sendo que 47% são mulheres. É importante ressaltar que os 65,3 milhões de pessoas agregam refugiados, solicitantes de refúgio e deslocados internos”, comenta Godinho.

Luiz Fernando Godinho, porta-voz do ACNUR no Brasil

Luiz Fernando Godinho, porta-voz do ACNUR no Brasil

Empoderando Refugiadas

Mesmo passando por outros países da América do Sul, a meta de Sayda era chegar ao Brasil. Primeiro, de acordo com ela, porque nos locais onde esteve antes de aportar por aqui as ofertas de emprego eram praticamente nulas, segundo, porque acreditava que ao chegar no País teria melhor condição de vida e mais dignidade. “Nunca pensei em ficar nos outros países porque sempre acreditei que quando chegasse aqui teria mais oportunidades de trabalho e uma vida melhor”, diz a colombiana.

Mas não foi bem assim. Ao chegar ela teve muita dificuldade para se colocar no mercado de trabalho. Foi aí que, por meio do Centro de Referência para Refugiados, projeto da Caritas Arquidiocesana de São Paulo, conheceu o “Empoderando Refugiadas”, iniciativa do Grupo de Direitos Humanos e Trabalho da Rede Brasil do Pacto Global, junto com a ACNUR, a ONU Mulheres, a própria Caritas São Paulo, a empresa de recursos humanos Fox Time e o Programa de Apoio para a Recolocação dos Refugiados (PARR). O projeto conta com o apoio da iniciativa privada por meio das Lojas Renner, Itaipu Binacional, Sodexo e Consulado da Mulher, que possuem refugiadas em seus quadros de colaboradores.

A primeira edição do projeto contou com a participação de 34 mulheres, refugiadas ou solicitantes de refúgio de diferentes países. Nele, as assistidas participaram de workshops (planejamento financeiro e profissional, direitos como refugiadas, mulheres trabalhadoras e habilidades práticas para melhorar o português). Além disso, receberam sessões de coaching e articulação com futuros empregadores.

“Após as primeiras conversas com os parceiros ACNUR e ONU Mulheres, chegamos à conclusão que poderíamos trabalhar com mulheres, que são ainda mais vulneráveis, mobilizando empresas e organizações que pudessem contribuir para a inserção delas no mercado de trabalho no Brasil”, explica Vanessa Tarantini, coordenadora de parcerias e engajamento do Grupo de Direitos Humanos e Trabalho da Rede Brasil do Pacto Global.

Vanessa Tarantini, da Rede Brasil do Pacto Global / Foto: Ricardo Jayme

Vanessa Tarantini, da Rede Brasil do Pacto Global / Foto: Ricardo Jayme

Próximos Passos

Para Sayda, participar do programa a ajudou a definir por quais caminhos seguir. Atualmente, ela trabalha em uma escola da rede estadual de ensino como auxiliar de limpeza, vaga que conseguiu por meio do projeto. Ela diz que se continuar no Brasil pretende abrir seu próprio negócio, tem formação em estética. “As conversas que tive com as pessoas nas palestras foram boas porque me fizeram enxergar novos caminhos, eles me ajudaram a ser uma pessoa mais independente, a tomar decisões sozinha. Antes, eu era muito dependente do meu marido, só ficava em casa. Agora, penso diferente”.

De acordo com Vanessa, esta primeira edição funcionou como um projeto-piloto. Agora, a Rede Brasil do Pacto Global se reunirá com os parceiros para formatar as próximas edições que, inclusive, poderão ocorrer em outras capitais.

Neste processo, as mulheres são encaminhadas para todas as empresas, parceiras ou não. A gerente de desenvolvimento organizacional da empresa de recursos humanos Fox Tïme, Danielle Pieroni, explica que foi realizado um trabalho de conscientização com clientes e colaboradores a respeito das dificuldades de inserção da mulher refugiada no mercado de trabalho brasileiro, de forma que eles se engajassem nessa causa e se tornassem facilitadores da integração dessas profissionais. “Isso significa que há um esforço conjunto de toda nossa equipe em identificar possíveis causas que dificultem uma recolocação, orientar essas mulheres a respeito dessas causas, de como se comportar em uma entrevista, de como é a nossa cultura no ambiente profissional, fazendo com que estejam preparadas para participar dos processos seletivos”, explica. Danielle diz ainda que a equipe também monitora oportunidades de mercado para encaminhar a elas. “Após serem empregadas, elas continuam recebendo nosso acompanhamento e orientação por um tempo, para ajudá-las com a integração em seu novo emprego e minimizar o turn over”, completa.

Danielle Pieroni, da Fox Time

Danielle Pieroni, da Fox Time

Por um mundo melhor

Uma das empresas participantes, a Sodexo, está atualmente em processo de contratação de uma participante do programa. Além disso, possui mais de 20 refugiados/imigrantes vindos de países como Haiti, Guiné Bisal, Bolívia e Coreia. A maioria das colaboradoras atua como oficiais de serviços gerais

“O tema diversidade e inclusão é muito importante para nós, e não temos dúvida de que a valorização e o respeito à diversidade pode fazer uma sociedade melhor. Quanto à nossa força de trabalho, aderimos porque acreditamos que ações que valorizam a diversidade e a inclusão proporcionam equipes mais colaborativas, colaboradores mais felizes e, consequentemente, times mais engajados. Participamos deste projeto pela seriedade dos parceiros e pelo caráter inovador”, diz Marcelo Vitoriano, Coordenador Diversidade & Inclusão da Sodexo.

Marcelo Vitoriano, da Sodexo

Marcelo Vitoriano, da Sodexo

De acordo com o Programa de Apoio para a Recolocação dos Refugiados (PARR), até maio deste ano quase 450 mulheres refugiadas ou solicitantes de refúgio, que possuem interesse no programa,  estavam cadastradas no site da entidade. “Elas correspondem a cerca de 30% do valor total de cadastrados. São mais de 30 nacionalidades diferentes provenientes da África, Oriente Médio e Ámerica Latina. As duas principais são República Democrática do Congo (33%) e Angola (32%). Alguns exemplos das demais nacionalidades são Nigéria (4,6%), Síria (4,3%), Camarões (3,1%), Colômbia (2,8%), entre outras”, informa Marília Cintra Correa, Assistente no Programa de Apoio para a Recolocação dos Refugiados do PARR.

Ela comenta ainda que, no caso de o idioma ser uma barreira, a Caritas SP possui alguns parceiros para encaminhamento de curso de português como Sesc, Senac, Mafalda, Educafro, CIEE, entre outros. “Após a conclusão do curso de português elas podem ser encaminhadas para cursos profissionalizantes (livres/técnicos) e até para cursos universitários. Todos esses encaminhamentos são feitos pelo programa de Integração da Caritas”, finaliza.

Marília Correa, do PARR

Marília Correa, do PARR

Comentários e sugestões de pauta podem ser encaminhados para o e-mail familiaplural@estadao.com.