Projeto editorial da Plan International Brasil, em parceria com a agência Y&R, traz Ariel, Bela Adormecida, Rapunzel e Cinderela em versões modernas, montadas em seus cavalos brancos, lutando contra bruxas e dragões e salvando príncipes

 

Lá no início dos anos 1980, quando criança, perdi a conta de quantas vezes ouvi meus pais, tios, professores e pessoas mais velhas em geral falarem que determinada atitude “não era coisa de menina”.

Naquela época, o mundo era dividido dessa forma: coisas para meninos e para meninas, pelo menos na minha cabeça. Rosa, mulher; azul, homem. Boneca, mulher; carrinho, homem. Correr na hora do recreio escolar, homem; ficar sentada com as amigas brincando de casinha, mulher.

Mesmo com todas essas regras que separavam meninos e meninas em suas ações diárias, eu cresci com muitos primos e, no dia a dia, gostava de participar das brincadeiras com eles: adorava soltar capucheta, jogar peão, bolinha de gude e taco. Brincava de pega-pega, esconde-esconde e andava de carrinho de rolimã. Teoricamente, coisas que uma menina não poderia fazer. Mas ali, no correr do dia, sem computadores ou celulares de última geração, no extremo sul da periferia da cidade de São Paulo, mesmo não “sendo coisa de menina”, eu e uma prima nos metíamos a fazer tudo o que queríamos.

Nossa rotina era bem diferente das histórias das garotas que encontrávamos nos livros, principalmente daqueles que traziam princesas como protagonistas. Protagonistas da fragilidade, pois estavam sempre em perigo ou precisando que alguém (leia-se um homem) decidisse algo por elas. A primeira vez que vi uma menina fazendo as mesmas coisas que um garoto foi numa história escrita pela Ruth Rocha, “Terezinha e Gabriela” (encontrada no livro Marcelo, Marmelo, Martelo e outras histórias), aliás, excelente leitura em tempos atuais.

Gabriela era uma menina moleca e Terezinha o “exemplo” de como uma garota deveria se portar, mas ambas tinham muito em comum. Resumidamente, a mensagem do livro diz: mesmo sendo mulher, você pode fazer o que quiser.

Quando soube do projeto da Plan International Brasil, que faz uma releitura dos clássicos da literatura infantil que trazem princesas como protagonistas empoderadas pensei: não há mais como calar a voz feminina, mostrar que podemos, sim, ser corajosas, ousadas, habilidosas, capazes, inteligentes etc, seja em qual idade for.

A Bela Adormecida chega numa versão empoderada, cheia de atitude e com inteligência emocional

A coleção A Revolução das Princesasuma série na qual os contos de Ariel, Bela Adormecida, Rapunzel e Cinderela são recriados por consagradas escritoras e ilustradoras convidadas traz versões modernas em que as princesas não são nada indefesas. Muito pelo contrário, são heroínas fortes e corajosas que montam em seus cavalos, lutam contra bruxas e dragões e salvam príncipes que precisam de ajuda.

Segundo Cynthia Betti, diretora Plan International Brasil, o projeto, realizado em parceria com a agência de publicidade Young & Rubican, tem como objetivo dar uma nova chance às princesas clássicas. “Trazer essas histórias anteriores com uma nova cara significa dar às princesas a chance de serem empoderadas e atuais”.

As obras desconstroem todos os estereótipos de que mulher é frágil, indefesa, que nasceu para casar e ter filhos, de que sempre precisa do sexo oposto para realizar tarefas complicadas, entre outros. Abordar a questão de gênero desde a infância possibilita trabalhar todos esses estereótipos que são colocados e combater o machismo, de acordo com a executiva da Plan. “Quando se trabalha a questão da igualdade de gênero na infância você trabalha também trazendo uma nova sociedade, novos homens que têm um olhar de igualdade. É um desafio. Trabalhando desde a infância, prevenimos a violência contra a mulher e a violências em relação ao gênero”, explica Betti.

Obras são recriadas por consagradas escritoras e ilustradoras convidadas

No livro “A Revolução da Aurora”, também conhecida como a Bela Adormecida, por exemplo, a princesa é negra, cheia de sentimentos, feminilidade, mas também de atitude e coragem. Ela e o príncipe não são apaixonados, mas amigos. E quem cai em sono profundo é ele, não ela.

Como se trata de uma releitura, o texto faz um recorte de uma parte do livro original. Com belas ilustrações e narrativa que mostram não apenas a força, mas como essas mulheres usam a inteligência emocional para lidar e traspor as adversidades, a coleção é uma fonte para despertar a criatividade e a identificação de meninas que passarão a enxergar as princesas de outra forma depois de ler qualquer uma das obras.

Este, certamente, não é um livro apenas para as meninas, mas também para os garotos, que segundo a diretora da Plan também fazem parte dessas histórias e precisam desconstruir esses modelos. “Estão dentro dessa nova realidade”.

O valor arrecadado com a venda dos livros será revertido para o projeto Escola de Liderança para Meninas, da Plan International Brasil, que apoia meninas no que se refere à prevenção das violências baseadas em gênero, promovendo o acesso ao conhecimento de seus direitos e de seu papel como cidadãs e reforçando que todas podem e merecem viver uma vida sem violência.

Veja como nasceu a ideia:

 

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