Defensora Pública do Estado de São Paulo, Fernanda Bussinger, compartilhou em seu Facebook a história de irmãos em busca de uma família que queira adotar os três juntos; prioridade é a manutenção dos laços biológicos.

No último dia 8, Fernanda Bussinger, Defensora Pública do Estado de São Paulo, postou em seu Facebook um texto que comoveu seus seguidores e rapidamente extrapolou sua rede de amigos, alcançando quase 9 mil compartilhamentos. “Peço sua ajuda, não custa tentar: sou Defensora Pública e hoje participei de uma audiência que destruiu meu coração: três irmãos lindos querendo muito ter uma família. Uma menina de 14 anos, um menino de 10 e uma menina de 4. Há possivelmente viabilidade de adoção para os dois menores (pois a mais velha ‘passou da idade’). Ela é louca pelos irmãos e está tendo que decidir se ‘desapega’ emocionalmente deles para deixá-los serem adotados (o que significa talvez nunca mais vê-los). A juíza disse que esta é a decisão mais difícil da vida dela e que não sabe como decidir. Será que não tem uma família neste país que adotaria os três? Por favor compartilhem, ‘vai que’. Que Deus leve esse post ao coração certo”, escreveu Fernanda.

A resposta da “corrente do bem” foi imediata. No dia seguinte, Fernanda usou seu Facebook novamente para atualizar o caso. “Inesperadamente, desde o meu post de ontem, recebi uma avalanche de empatia e amor. Casais e pessoas que trabalham com estes casos difíceis entrando em contato, pessoas que sofreram a separação de irmãos em situação semelhante me contando suas histórias, sugestões de como proceder… Enfim! Sobre o caso específico digo: as três crianças têm tudo para ganhar um lar! O processo de adoção é feito com cautela e num primeiro momento serão contatadas as pessoas que já estão habilitadas legalmente para a adoção (o contato será feito pela Vara). Todavia, como há casos em que não se acham interessados na lista, todos que se manifestaram terão seus contatos fornecidos ao juízo.”

E continuou. “Ontem, fui conversar com a assistente social da Vara e ela estava com outros três irmãos na mesma situação. Disse que há muitas outras duplas de irmãos e até crianças filhas únicas que já estão se tornando ‘inadotáveis’ (termo para ser abolido!). Percebi que talvez esteja faltando pontes entre as pessoas que estão dispostas a adotar crianças fora do ‘perfil’ (grupos de irmãos, crianças mais velhas) e estas crianças. Nada acontece por acaso, né? Por isso, algumas pessoas da área e do Direito fizeram contato e vamos dar continuidade a estas iniciativas.”

Foto: Pixabay

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O blog conversou com Fernanda Bussinger para saber mais sobre o caso e mostrar a importância de debatermos questões como adoção tardia e de grupo de irmãos, em que a prioridade é “a manutenção dos laços biológicos”, enfatiza a Defensora Pública. Leia a entrevista abaixo:

Por que ocorreu essa audiência da qual você participou envolvendo o caso dos três irmãos a serem adotados?
Esta era uma audiência em uma ação de acolhimento. Quando qualquer criança é colocada em uma instituição de acolhimento, um processo judicial deve ser iniciado. A prioridade é a manutenção dos laços biológicos e, assim, a família deverá ser procurada e, caso haja alguma questão tratável que os impediu de ficar com as crianças, esta questão deverá ser tratada pelos profissionais da assistência social, da saúde e da saúde mental. Há casos em que o único problema é a miséria. Após, se não houver a possibilidade da manutenção, a ação de acolhimento pode ser acompanhada de uma ação para destituir os pais do poder familiar. Caso seja destituído e existam famílias interessadas, uma outra ação de adoção terá início.

Esses três irmãos estão para adoção há quanto tempo?
As crianças estão abrigadas há algum tempo. A percepção de que os laços biológicos não poderão ser mantidos com a família extensa é recente. Portanto, eles estão aptos para a adoção há pouco tempo.

Por que eles estão para adoção? Eles não têm alguém da família que possa cuidar deles?
Eles possuem família, mas a família no tempo em que estiveram na instituição de acolhimento – segundo a percepção do juiz – não demonstrou estar apta a recebê-los de volta.

Já houve interessados em adotá-los, digamos, separadamente? Se sim, o que ocorreu para não serem adotados dessa forma separada?
Segundo a Vara, há pessoas aptas para adoção que colocaram como perfil apenas hipóteses em que se enquadravam os irmãos mais novos. Mas não houve busca específica de casais que se recusaram a adotar a mais velha. No caso, como há a irmã mais velha muito ligada aos menores, ainda não houve decisão pela separação deles e, por isso, não foram colocados para adoção os dois mais novos.

A Defensora Pública do Estado de São Paulo Fernanda Bussinger. Crédito: Alesp/Divulgação

A Defensora Pública do Estado de São Paulo Fernanda Bussinger. Crédito: Alesp/Divulgação

Como e por qual motivo você teve a ideia de colocar o caso no Facebook para que a história fosse compartilhada?
Na audiência, pareceu que só havia essas duas possibilidades: ou adoção dos dois mais novos ou de ninguém. Mas a juíza deixou claro que se houvesse um família interessada nos três teria total prioridade. Então, o meu post foi uma tentativa de localizar uma família ao menos que se dispusesse.

Por que é tão difícil crianças mais velhas serem adotadas?
Há um receio acerca da adaptação. Há também um certo romantismo acerca da ideia de que o filho adotado será moldado conforme os sonhos dos pais para ele e isso parece menos provável de acontecer com uma criança mais velha ou um adolescente.

A partir de que idade a criança começa a ter mais dificuldade de ser adotada?
A chamada “adoção tardia” – que são estatisticamente muito menos prováveis – é a partir dos oito anos de idade.

Por que também é difícil encontrar interessados em adotar um casal de irmãos ou mesmo três irmãos, como acontece nesse caso?
Muitas pessoas me procuraram relatando questões financeiras. Também acontece que num grupo de irmãos algum normalmente é mais velho. Mas acredito que a principal razão é o receio pelo desafio da adaptação que se torna mais complexa quanto maior o número de novas pessoas na família.

Você escreveu que “Percebi que talvez esteja faltando pontes entre as pessoas que estão dispostas a adotar crianças fora do ‘perfil’ (grupos de irmãos, crianças mais velhas) e estas crianças”. No entanto, já conversei com pessoas que estão na fila de espera para adotar uma criança, elas dizem que não foram nada restritivas na solicitação (ou seja, aceitam adotar crianças mais velhas, de qualquer raça, etc) e, mesmo assim, estão nessa fila há muito tempo. Por que isso acontece? Por que essas duas pontas não estão se encontrando?
Eu não tenho conhecimento exato acerca dos entraves. Percebi que algum há: ou é a questão do perfil restrito ou do cruzamento de informações. Com o post comecei a ser procurada pelas pessoas e descobri que existem grupos muito sérios que fazem essa intermediação. Sugiro que estas pessoas se informem acerca desses grupos. Isto porque o corpo de funcionários do judiciário me pareceu muito enxuto para estas pesquisas acerca de famílias possíveis e estes grupos trabalham auxiliando justamente nisso. Tomei conhecimento acerca de um coletivo que intermediou a adoção de 70 crianças fora do “perfil” no ano passado.

Desde que você fez a postagem, surgiram muitos interessados em adotar o trio?
Graças a Deus, sim. Alguns já habilitados legalmente para a adoção e alguns que se animaram a se tornarem habilitados. Assim, outras crianças em situação semelhante serão beneficiadas.

Se a pessoa ou o casal já entrou com a documentação para a adoção, está na lista de espera e quer adotar os três, o que deve fazer?
Eu levantei o nome dos interessados e o número do processo de habilitação e forneci para o corpo de funcionários do juízo, que entrará em contato. Há muitos outros grupos de irmãos em situação muito semelhante. Sugiro procurar a vara do local em que o processo correu e informar acerca da flexibilidade do perfil.

Se a pessoa ou o casal ainda não iniciou o processo de adoção e se interessa em adotar os três, o que deve fazer?
Procurar a vara da infância do fórum mais próximo à sua residência e começar a fazer os cursos de capacitação. Como existem casais já habilitados que se manifestaram favoravelmente, acredito que eles serão procurados primeiro.

Como é possível reverter essa situação, incentivando os adotantes a não serem tão restritos, a olharem também para as crianças mais velhas, grupo de irmãos?
Acredito que é ideal que não se veja a adoção como forma de caridade – não esperando reconhecimento e gratidão em troca – nem tampouco como forma de realização pessoal. A adoção é um novo filho que chega em uma família, com seus dilemas e limitações e deve encontrar nos pais adotantes uma família disposta a acolhê-los desta forma. Tal como ocorre com os filhos biológicos.

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