Toda noite, quando chego do trabalho, a casa parece vazia. De um vazio de doer a alma, o coração. Confesso que, às vezes, tenho feito hora para voltar para casa. Para mim, é difícil encarar a realidade: meu doce gato Chicão nunca mais vai me receber na porta. É duro olhar para os cantos da casa onde ele gostava de ficar e não encontrar mais vestígios dele.

Chicão morreu há duas semanas. E só agora consigo escrever sobre essa perda – mas não com menos tristeza, menos lágrimas.

Como esquecer daquela manhã em que acordei e vi a chamada perdida no meu celular do hospital veterinário onde ele estava internado? Prenúncio da pior notícia que eu poderia receber.

O doce Chicão. Foto: Marina Pauliquevis/Acervo pessoal

Como esquecer da imagem do corpinho sem vida dele estendido sobre a mesa fria, envolvido em uma manta? Naquele momento, o tempo parou. E eu só conseguia chorar enquanto passava minha mão sobre seu pelo ralo ainda macio e sua pele gelada, dizendo repetidamente que o amava e pedindo perdão porque não tinha conseguido salvar a vida dele. O sentimento de impotência é dilacerante.

Enquanto eu o afagava, tentando evitar a hora de me despedir dele de vez, observava aquele seu bigodinho branco e preto, as almofadinhas rosadas de suas patas que caminharam tanto, a cicatriz de uma briga antiga que teve com outro gatinho meu, o Gabriel, que já partiu faz tempo.

Foi muito difícil dizer adeus.

Chicão tinha 13 anos. Tão jovem para a idade dos seres humanos, mas já idoso para a idade dos animais. E isso me parece tão injusto. Sei que está relacionado à genética dos animais, mas como é doloroso termos de nos despedir de tantos bichinhos de estimação ao longo da nossa vida.

Percebi como várias pessoas, quando vieram me consolar, lamentavam justamente o fato de os bichinhos viverem tão pouco em relação a nós. E muitas delas falaram também sobre a lição de finitude que eles nos ensinam. Um dia, pessoas que são queridas também vão partir. Um dia, nós vamos partir. Nada é para sempre.

Chicão filhotinho. Foto: Acervo pessoal

Invariavelmente, quando lembro do Chicão, passa aquele filme na minha cabeça, desde quando ele chegou na minha vida ainda um filhotinho. O nome dele foi inspirado no filho de Cássia Eller – que, ao se tornar músico, adotou o nome artístico de Chico Chico. O meu gato, não. Se chamou Chicão até o final. Mas, claro, não escapou dos apelidos: Chico, Chicolino, tiozinho…

Persa lindo, ruivo, temperamental, reservado, amoroso, Chicão veio antes da minha filha, Sofia, que hoje tem 10 anos. Foram 13 anos de vida, mas parece que foram 20, 30. Passamos tantas coisas juntos. Nos momentos mais felizes da minha vida, ele estava por perto. Nos momentos mais tristes, também. Ele foi tão paciente comigo. Ele foi tão compreensivo comigo. Era meu bichinho, meu filho mais velho.

Agora, somos só eu, a Sofia e a gata Amy (que o procura pela casa e não entende por que ele sumiu).

E, toda noite, antes de dormir, para amenizar a dor, imagino que o Chicão foi recebido na porta do paraíso dos bichinhos pela minha gata Marie, que morreu precocemente, em 2016. Marie e a frajola Amy se juntaram à nossa família quando Chicão já tinha seus 10 anos. Mas Marie era a única com quem ele brincava.

Então, me conforta a ideia de que o Chicão está com a Marie, e que os dois vão brincar juntos, eternamente, num lindo gramado verde. Felizes e com a certeza de que foram muito amados enquanto estiveram por aqui – mesmo que por tão pouco tempo.

 

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