O blog conversou com o escritor, diretor e roteirista Igor Zahir, autor do livro e da série ‘Mães em Crise’, que revela o lado real da maternidade, por meio de histórias de mulheres que endereçam cartas imaginárias aos filhos, expondo suas angústias, dúvidas e temores

Uma mãe com câncer que escreve a última carta aos filhos; a mãe batalhadora que perdeu a filha e arrumou forças na criação das netas; a mãe solteira que não se arrepende do que aconteceu em sua vida; a dor da mãe que acredita ter dado à luz um psicopata; a mãe que se apaixona por outra mulher. O escritor, diretor e roteirista Igor Zahir reuniu essas e outras histórias no livro ‘Mães em Crise’, que, no Brasil, está disponível em e-book, pela Amazon, por R$ 19,90, e fora do País está sendo traduzido para nove idiomas.

O livro deu origem ainda a uma série homônima, dirigida por Luís Felipe Romano e roteiro assinado por Igor Zahir com a psicóloga Fernanda Vautier, que também cuidou de toda consultoria de pesquisa. O piloto, espécie de trailer, já pode ser visto no YouTube, assim como o primeiro episódio, com a história da Kariny, a mãe de um garoto psicopata que matou o próprio irmão, gêmeo, ainda criança. São relatos tocantes em primeira pessoa, feitos por diferentes mulheres em cartas imaginárias a seus filhos, em que elas expõem todas as suas angústias, suas dúvidas e seus temores em relação à vida e à maternidade.

Zahir conta que o universo feminino sempre o fascinou, talvez por ter escrito durante muito tempo para revistas femininas, como ‘Marie Claire’, e ter tido presenças femininas fortes em sua criação: a da mãe e da avó paterna. “Há um tempo, passei por uma fase muito delicada sentimentalmente falando, que me fez sofrer muito. Não conseguia pensar em nada, não conseguia criar. Foi quando senti que devia novamente me voltar para as histórias do universo feminino, que sempre me ensinou tanto através de histórias impressionantes”, lembra o autor, em entrevista ao blog.

Cena da série 'Mães em Crise'

Cena da série ‘Mães em Crise’

Foi o que eu fiz: primeiro escrevi a história da Kariny, a mãe que deu à luz um garoto com transtorno de conduta, sem nem saber ainda o que faria com aquela personagem: se seria um livro só dela, uma protagonista de filme, enfim, era muito vago. O que sei é que entrar fundo naquela trama me tirou daquele sofrimento que eu me encontrava, por isso digo que Kariny foi uma das personagens mais inesquecíveis da minha carreira. E eu vi, assim que terminei aquele texto, que todos os sofrimentos pelos quais passei eram tão pequenos perto de histórias como aquela, que às vezes o que precisamos é olhar para o lado e conhecer enredos reais que nos questionem e possam nos tirar da nossa zona de conforto.”

Veja outros trechos da entrevista de Igor Zahir ao blog:

Como você chegou a esse formato para seu livro: mães expondo suas histórias, seus sentimentos, suas angústias, enfim, sendo as protagonistas, em cartas imaginárias endereçadas aos filhos?

Quando terminei a Kariny, fiquei muito curioso para saber mais histórias envolvendo a maternidade. Kariny é aquele tipo de mãe que nossa sociedade não mostra: a mulher por trás de pessoas que não se comportam do modo como julgamos ser corretos. A mãe dos marginalizados. A mulher que deu à luz um ser que pode tumultuar a estabilidade socialmente planejada. Pensei que, assim como Kariny, outras mães deveriam ter histórias interessantes a contar, que não costumam falar a respeito, ou que simplesmente não procuramos saber, mas que podem ensinar muita coisa.

Como você escolheu as histórias?

Elas foram simplesmente surgindo de alguma forma no meu caminho. Primeiro, a da Kariny, que me fez sair daquele caos sentimental que minha vida se encontrava. Depois, lembrei-me da história da mãe que perdeu a filha, eu conhecia a história de ambas e a procurei para falarmos a respeito. Em seguida, pensei que, com a epidemia de microcefalia no Brasil, deveria ter alguma mãe passando por poucas e boas caso estivesse grávida e descobri que, sim, havia uma no meu ciclo de amigos. Como sempre gostei de escrever sobre histórias de mulheres que a sociedade não fala (algo muito aguçado na minha carreira de jornalista), não tive dificuldade em pensar sobre tipos de mães que não se fala muito, mas que deveriam. A mãe garota de programa, a mãe do político, a mãe lésbica.

O autor Igor Zahir

O autor Igor Zahir

Por que mostrar o lado, digamos, menos doce da maternidade por meio dessas histórias?

Porque, quando comecei a escrever, pensei “qual o motivo de ninguém falar disso?” e fui me dando conta que a vida toda só se falava no lado “perfeito” da maternidade, que não tem nada de perfeita. Mães erram, não têm manual de instruções. São seres humanos. Não existe isso de “mãe não pode adoecer” ou “a culpa é da mãe”, que são pensamentos tão comuns quando se trata de julgar os outros. A fim de entrar nesse movimento de mostrar a maternidade como ela é, criei também o Instituto Mães em Crise, com o objetivo de ajudar essas mulheres que necessitam de auxílio psicológico, estrutural ou social. Mulheres que sofrem qualquer tipo de abuso, físico ou psicológico. Vítimas de violência doméstica; mães solteiras que necessitam de orientação frequente; mães presidiárias que são impedidas de exercer a maternidade de forma adequada; entre outras. O Instituto é uma plataforma que acaba de começar, mas com atuação se concretizando em 20 países, como Inglaterra, Estados Unidos, Escócia, Irlanda, Espanha, Japão e França. Mais informações sobre ele: http://maesemcrise.wixsite.com/instituto

Por que você acredita que existe esse pensamento de que mãe tem de ser perfeita e feliz com a maternidade?

É mais um resquício da sociedade em que vivemos, que se habituou a julgar as mulheres de todas as formas. Tanto que criam a mulher com a ideia de que pai é “ajudante”, como se ele não tivesse as mesmas obrigações. Durante o processo criativo do programa que estou dirigindo, vi o quanto isso é real. Uma delas mencionou a cobrança por ser uma figura pública que passa a semana numa cidade longe da filha, que mora com o pai, e não com um estranho. As pessoas cobram coisas como “ah mas você deixa sua filha sozinha lá?”. Não, ela não está sozinha, está sendo cuidada pelo pai, que fez a menina junto com a mãe, concorda? Outra delas me falou sobre a estranheza que ainda causa no fato do marido quase sempre buscar e levar o filho na escola, já que ele tem mais tempo do que a mulher. Qual o problema nisso? É mais um daqueles hábitos de dividir a sociedade entre “coisas de homem” e “coisas de mulher”. Isso reflete na maternidade como “obrigações de pai” (geralmente incluem aqui uma lista minúscula de afazeres) e “obrigações de mãe”.

Você tem planos de levar a série para a TV também?

Sim, ela está sendo negociada com um canal de TV por assinatura que se interessou pelo projeto (ainda não posso revelar qual canal, por decisão deles). Por isso mesmo, os outros episódios estão sendo produzidos ainda, porque a estreia agora será na TV. Dentro de alguns meses, retomamos a produção da primeira temporada, com as mesmas atrizes do piloto.