Encontros valorizam as diversas configurações familiares e fortalecem relações entre as famílias

Há crianças e adolescentes que vivem com o pai e com a mãe; outros, moram só com o pai ou com só a mãe; há ainda aqueles que são criados pela avó ou que residem com a mãe, o padrasto, os meio-irmãos. Tem também os filhos adotados por casais homoafetivos e por aí vai. Atentas a essas novas configurações, muitas escolas promovem o Dia da Família – ou eventos abertos a todos os parentes de seus alunos – em substituição aos tradicionais Dia das Mães e Dia dos Pais.

O blog conversou com representantes de alguns colégios e escolas de São Paulo que adotaram esse tipo de evento em seus calendários. No Colégio Rio Branco, que tem unidades em Higienópolis e Granja Vianna, o Dia da Família é realizado há, pelo menos, oito anos. No mês passado, a instituição decidiu integrar dois eventos num mesmo dia em suas duas unidades: a Feira do Livro e o Dia da Família, com diversas oficinas culturais, literárias, entre outras atividades.

Reunimos dois motes, mas o conceito é que nós, já há muitos anos, abolimos as comemorações específicas de Dia dos Pais e Dia das Mães porque entendemos que as configurações familiares são muito diversificadas, e o que importa para a criança é o vínculo. Quem é a pessoa que forma esse primeiro núcleo de sentido para ela. Essas são as pessoas convidadas a comparecer”, explica a diretora-geral do Colégio Rio Branco, Esther Carvalho.

Dia da Família no Colégio Rio Branco

Dia da Família no Colégio Rio Branco

Esther conta que, no começo, a então nova data causou certo estranhamento em alguns pais. ‘Não tem Dia das Mães, não tem Dia dos Pais?’, chegaram a questionar. Mas, quando vinha a justificativa, sempre houve a compreensão. “Acho que a gente traz para a escola algo mais verdadeiro, sem esteriótipo, e valorizando as pessoas importantes na vida dos alunos.”

Outro momento em que as famílias se reúnem no colégio é no Encontro com a Direção, em que pais, responsáveis e escola debatem temas relevantes. “É uma oportunidade de construir uma relação bacana com a família e, como ele é aberto, você tem diferentes tipos de pais, de famílias que estão conversando sobre essas questões”, comenta a diretora-geral. “É o momento que a gente tem apenas duas regras: não se trata de coisas pessoais e respeito às ideias. Não tem ideia certa ou errada, tem ideias, e o olhar de que cada família é um núcleo muito especial, que tem uma dinâmica muito especial, embasada em valores, em percepções.”

Na Escola Stance Dual, na região central, o Dia da Família é ao ar livre, em algum parque da cidade. Este ano, foi realizado em abril, na Parque Buenos Aires. “A ideia da escola é, de fato, uma confraternização não só dos filhos com suas famílias, na diversidade que possa vir a existir, mas também entre as famílias. Então, não temos especificamente Dia dos Pais e Dia das Mães, porque a gente vem procurando ajustar esses eventos às configurações que há bastante tempo vem acontecendo”, afirma Ana Claudia Esteves Correia, orientadora educacional do Fundamental II da Stance Dual, que investe no ensino bilíngue.

Nesse dia, a escola proporciona algumas atividades culturais, de acordo com a idade dos alunos. E é sempre proposto um piquenique coletivo. “Além da ideia de diversividade dos estilos de família, tem a ideia que as famílias se conheçam e fortaleçam essa ideia de comunidade”, complementa Ana Claudia.

Segundo ela, a escola trabalha com as crianças essa questão da diversidade, mas percebe que precisa envolver a família também. “Então, conhecer, ver de perto, compartilhar um lanche, tudo isso traz um conhecimento mais legítimo da organização que as famílias têm”, diz. “No Dia da Família, é bem tranquilo. Como as famílias vão se agrupando, a proposta é que tenha um clima de inserção. Não dá para garantir que as pessoas vão ficar livres de seus preconceitos, mas a gente, como escola, tem de abrir espaço e evitar reforçar algumas ações que separem as pessoas. Precisamos fazer ações que as reúnam.”

Diversão no Dia da Família no Colégio Elvira Brandão

Diversão no Dia da Família no Colégio Elvira Brandão

A psicóloga e gestora educacional Betina Dauch, do Colégio Elvira Brandão, na Chácara Santo Antônio, diz que o Dia da Família é realizado ali por diversos intuitos. “Um deles é, de fato, a gente poder abarcar o conceito de família e quebrar um pouco essa ideia só de pai, de mãe. Hoje, sabemos que há configurações diversas de famílias: temos casais homossexuais, crianças criadas pelos avós, pelos tios, que têm só o pai, só a mãe. Então, a ideia é celebrar o conceito da família, qualquer que seja ele”, avalia. “E, para além disso, tem a ideia de propiciar um momento de convivência na escola, desde manhã até a tarde, com diversas opções livres, não tem uma programação fixa.”

Sobre o Dia da Família ocupar o lugar das datas comemorativas tradicionais, Betina também afirma que não houve queixas dos pais. “É uma forma nova de ver, então, vem como uma pergunta. Mas não teve pais reclamando. Acho que ficou claro, não é um incômodo”, comenta. “Quando a gente consegue explicar que tem um conceito por trás, que a gente faz isso também para promover um espaço em que todo mundo caiba dentro dele. Porque, muitas vezes, o Dia das Mães ou o Dia dos Pais exclui uma parte das crianças. Quando a gente explica isso e fala da importância de ter um dia de convivência, de compartilhamento de experiências, eles entendem.”

Momento do Brinquedos e Brincadeiras no Colégio Equipe

Momento do Brinquedos e Brincadeiras no Colégio Equipe

No Colégio Equipe, em Higienópolis, explica a diretora Luciana Fevorini, não há oficialmente o Dia da Família, tampouco a celebração do Dia das Mães e dos Pais. Mas o colégio promove eventos que fortalecem a parceria entre família e escola. “A gente tem um princípio na questão da aprendizagem que é: o aluno deve saber o que ele aprendeu, como ele aprendeu, por que ele aprendeu, e saber contar para os outros sobre tudo isso. E o que fazemos na escola são eventos para socializar trabalhos que os alunos coletivamente fizeram. Então, temos ao menos dois grandes eventos em que convidamos os pais e os familiares a ser ouvintes desse processo de aprendizagem”, conta Luciana.

E são esses os momentos em que as diferentes configurações familiares aparecem. Como o colégio trabalha isso? “Como essa é uma questão mais íntima das crianças e dos jovens, a gente respeita tanto o que a família nos conta quanto o que os jovens querem compartilhar”, responde a diretora. “Muitas vezes, a gente atribui questões da criança e do jovem a problemas da família, tem uma certa visão que essas famílias são desestruturadas, mas, no meu doutorado, por exemplo, eu encontrei famílias diversas muito participativas na educação dos filhos. Às vezes, um casal na formação tradicional vive de um jeito que não gera filhos saudáveis. A gente vai respeitando conforme cada família vai conversando com a gente.”