Massacre na escola estadual Raul Brasil, em Suzano (SP), nos provoca a questionar sobre a forma como estamos construindo as relações em nossos lares; estamos construindo mais pontes ou paredes dentro de casa?

É quase que inevitável quando tragédias ocorrem que a população, de uma forma geral, busque por culpados. Afinal, temos milhões de especialistas na milenar arte de “apontar o dedo” e também no tradicional método de “terceirizar os problemas”. No entanto, será que nos damos conta que muitos dos acontecimentos envolvendo jovens agressores se dão pelo fato da crescente intolerância, da falta de compreensão, das constantes comparações, da ausência de diálogo e da troca de bons sentimentos dentro do próprio lar?

Não estamos aqui para julgar, muito pelo contrário, e sabemos que ser pai, mãe e ainda educador não é das tarefas mais fáceis, principalmente quando é preciso dar aos filhos aquilo que nunca recebeu. Como oferecer amor, compreensão, diálogo, positividade, dentre muitos outros sentimentos, quando não se recebeu? Como trabalhar a fragilidade emocional dos filhos em uma sociedade que está cada vez mais doente, seja pela falta de segurança, instabilidade, intolerância, ausência de empatia, entre outros?

Diariamente, surgem novas informações a respeito da terrível ação dos ex-alunos Guilherme Taucci Monteiro, de 17 anos, e Luiz Henrique de Castro, de 25, que terminou com 10 mortos e 11 feridos na escola estadual Raul Brasil, em Suzano (SP).

Como trabalhar a fragilidade emocional dos filhos em uma sociedade que está cada vez mais doente? Fotos: Pixabay

Algumas publicações têm levantado linhas de raciocínio, por meio de entrevistas com especialistas, que seguem por um caminho que vem antes da tragédia, quase que um chamamento para pais, professores e sociedade como um todo para questões que dizem respeito à forma como estamos construindo as relações com os nossos filhos. Sim, construindo, porque ninguém é obrigado a amar um ser automaticamente apenas pelo fato de ele ter saído de sua barriga. Se construímos relações de amor com amigos, parceiros e parceiras, familiares (sempre tem aqueles de quem somos mais próximos), porque não admitir que as relações entre pais e filhos também devem passar por esse processo.

Quando um relacionamento não dá certo, por exemplo, muitos de nós têm o hábito de se questionar sobre “onde foi que não funcionou”, “onde eu errei”, “o que será que podíamos ter feito de diferente”. E nas relações com os filhos? Será que estamos atentos e nos perguntando onde podemos melhorar, o que não está funcionando, e por que o diálogo tem se tornado cada vez mais escasso em alguns lares?

Para a terapeuta Carla Poppa, doutora em psicologia clínica pela PUC-SP, é importante exercitar a empatia e ajudar o filho a nomear o que sente. Se os pais não souberem o que aconteceu, por exemplo, devem fazer perguntas concretas e detalhadas, evitando reações automáticas e tentando relembrar a própria infância.

Para ela, se por um lado não é possível afirmar o que levou os dois assassinos a cometerem este crime, por outro, os estudos na área da psicologia mostram quais cuidados uma criança precisa para se desenvolver com saúde, o que pode ajudar a refletir sobre a maneira de prevenir nas relações familiares atos bárbaros de crianças e adolescentes. “Em essência, o desenvolvimento saudável é sustentado pelo diálogo. Uma relação na qual existe diálogo oferece para a criança a sensação de que ela tem a quem recorrer sempre que precisar. Com isso, ela não se sente sozinha e não se isola do contato com as pessoas. É quando existe um canal de comunicação aberto que a criança, de fato, sente e usufrui da companhia dos pais. Com isso, encontra o apoio necessário para enfrentar os desafios do dia a dia e se desenvolver com saúde”. E completa: “o desenvolvimento saudável das crianças depende, em partes, do tempo que os pais dedicam aos seus filhos. É preciso dedicar tempo, sim, mas tempo sem comunicação de qualidade não garante que a criança não esteja se sentindo sozinha. O isolamento e a solidão são cuidados com o diálogo”.

Será que estamos dedicando menos tempo aos filhos? Quais as consequências disso?

Para Lady Christina Sabadell, diretora geral da Escola Bilíngue Pueri Domus, graduada em pedagogia, psicopedagogia e com mestrado em Educação, sim, os pais têm dedicado menos tempo aos filhos e a consequência é que eles criam um universo próprio: os amigos, as séries, os games, as redes sociais e seus grupos. “Logicamente os pais estão fora: não conhecem os amigos, não assistem às mesmas séries, não fazem parte dos grupos sociais, não frequentam os mesmos círculos. É claro que cada um deve ter seu espaço, mas em quais momentos esses espaços se conectam? Como podemos estar próximos sem invadir, oprimir e reprimir? Costumo dizer que se aprende a caminhar arriscando a andar, ou seja, é na relação próxima entre pai e filhos que os ajustem acontecerão, mas para isso é preciso que haja um relacionamento de fato”.

Relação com os filhos precisa ser construída, em um exercício de escuta e de troca dia após dia

De acordo com Gabriela Luxo, psicóloga, psicopedagoga, mestre e doutora em Distúrbios do Desenvolvimento, “os pais se esqueceram que educar é ter trabalho, vai ter, sim, que repetir várias vezes, vai demandar tempo, esforço e dedicação, então, isso é muito preocupante”. A profissional defende que estar presente não é só aos fins de semana, significa, por exemplo, ir à escola do filho com frequência para saber se está tudo bem, independentemente da idade. Perguntar como o filho se sente e não apenas apontar (por exemplo: você está diferente, está gordo, chato, não para de comer, não sai do quarto).  Ao invés de apontar, a melhor coisa é abordar com perguntas do tipo: como você está?, como você se sente?, eu sei que isso é difícil para você, mas como posso te ajudar?

“Se o pai ou a mãe percebe que o filho está mostrando alguma coisa ou comportamento diferente, é preciso procurar ajuda, não podem deixar para depois. É preciso se envolver mais com o dia a dia, se deixar para depois não dá mais tempo. Por isso os casos enormes de suicídio na adolescência. Os adolescentes não estão sendo ouvidos e isso é muito sério”, comenta Gabriela.

Talvez uma pergunta que muitos pais têm feito a si próprios diante desses acontecimentos seja: em que momento deixamos de prestar atenção em nossos filhos a ponto de não conseguir identificar se estão envolvidos com drogas, sofrendo ou praticando bullying, depressivos, envolvidos com organizações criminosas, dentre outras coisas?

A psicóloga Bia Nóbrega coloca que as famílias são a principal base estruturante de cada um de nós. “Se a família não está presente ‘com alma’, ou seja, de forma incondicionalmente amorosa, os filhos sentirão a indiferença e buscarão, de forma desesperada, adrenalina, diversão, prazer para mascarar o problema”.

Já para o professor Diego Sena, do colégio B.A.L., os pais se perdem quando acreditam que os filhos já são independentes o suficiente para tudo, o pensamento de “meu filho nem aparenta a idade que tem de tão maduro que é!”. Para ele, isso é querer se enganar, pois filhos são filhos e idades são idades. “Não exija algo que eles não tenham maturidade para resolver. Quando menos se espera, já estarão envolvidos em mundos e grupos sombrios e de práticas trágicas. A automutilação, a depressão precoce, vícios em drogas ilícitas e lícitas, obesidade, antipatia, dentre outros”.

A solução apontada pelo professor para isso? “Ouça mais, argumente com seus filhos e não diga somente ‘faça assim e acabou’. É preciso dar mais exemplos e não exigir sem que você não faça o mesmo. Muitas vezes, a hipocrisia e a desonestidade começam dentro de casa”.

(colaborou Adriana Del Ré)

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