A frase que está no título deste texto ecoou na minha mente desde que as imagens chocantes do DJ Ivis agredindo a ex-esposa, Pamella Holanda, foram divulgadas no domingo e que essas palavras começaram a tomar conta das redes sociais como um mantra poderoso: ‘Em briga de marido e mulher, a gente salva a mulher’. Mas mais do que isso: como uma forma de reparar um antigo ditado que mulheres da minha geração (e da geração da minha mãe, da minha avó…) cresceram ouvindo: ‘Em briga de marido e mulher, ninguém mete a colher’.

Mulheres precisam de uma rede de apoio atenta ao que acontece. Foto: Diana Cibotari por Pixabay

Não dá para ignorar o lado nocivo das redes sociais, com disseminação de ódio, fake news, etc., mas precisamos falar de sua importância no debate de assuntos relevantes, como os relacionados a violência doméstica, relacionamentos abusos e masculinidade tóxica. Graças a mulheres que começaram a trazer o tema a público e a compartilhar suas histórias pessoais de sofrimento, humilhação e violência por causa de parceiros algozes, muitas outras começaram a se identificar também num relacionamento abusivo-violento, a perceber o real perigo de estar nele, e a pedir ajuda, a denunciar. Ou se deram conta de já terem passado por um relacionamento abusivo. Esse é o meu caso.

Já estive em um relacionamento abusivo sem saber que estava, já que o assunto, na época, não era amplamente discutido como agora, em que conseguimos detectar o comportamento de um típico parceiro abusivo, que agride psicologicamente a companheira até evoluir para a violência física (e, em muitos casos, para o feminicídio). Esse tipo de relacionamento começa com atitudes aparentemente banais, de quem ‘ama e cuida’: ciúmes exagerados, cerceamento da convivência da parceira com seus amigos, sufocamento de sua autonomia. Sair sozinha? Nem pensar.

Pois bem: os ‘inofensivos’ cerceamentos culminaram numa situação-limite: uma briga feia dentro do carro em movimento, meu ex gritando comigo e dando socos no volante. E ali eu tive a certeza que estava prestes a ser agredida fisicamente. Implorei para ele parar o carro, ele se recusava, até que o carro milagrosamente bateu numa lombada, o que o obrigou a parar. Foi a chance que encontrei para descer correndo, chorando. E eis que surgiu um vigia particular da rua que o confrontou. O desconhecido que “meteu a colher” salvou a mulher. Eu consegui fugir.

Minha integridade física foi preservada – não posso dizer o mesmo da psicológica. Como todo parceiro abusivo, vieram depois o ‘arrependimento’, o pedido de desculpas, a promessa de mudança. Fiquei mais um tempo naquela relação, mas sentia medo, tristeza.

Saí do relacionamento por conta própria, mas não fui regra, fui uma das exceções. Isso porque, por diferentes razões, muitas vezes, a mulher não consegue sair sozinha desse tipo de relação, e fica exposta a situações de perigo e desfechos trágicos (vale lembrar que os casos de violência contra a mulher e de feminicídio no Brasil aumentaram ainda mais na pandemia).

Toda mulher precisa contar com uma rede de apoio que não feche os olhos para o que está acontecendo; que saiba que seu comportamento fica diferente quando ela está com o parceiro; ou que perceba que ela está pedindo socorro, mesmo que em silêncio. E isso envolve quem está ao seu redor: família, amigos, colegas de trabalho, vizinhos, até mesmo desconhecidos. E, sim, tem que meter a colher, o garfo, a panela, a polícia, se isso for necessário. É o que salva a mulher.

Ainda no campo das redes sociais, pude ver também a grande corrente de solidariedade feminina que envolveu Pamella Holanda, partindo, sobretudo, de mulheres desconhecidas dela que entenderam sua dor, mesmo que nunca tenham passado por uma situação parecida. É a sororidade levada ao pé da letra. Certamente, isso deu uma força descomunal para que ela siga em frente.

* Ligue 180 para denunciar situações de violência contra a mulher