O Família Plural repercutiu as declarações do presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, e conversou com mulheres que se consideram realizadas sem a maternidade em suas vidas

Na última semana, o presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, fez comentários em evento da Associação de Mulheres e Democracia, em Istambul, afirmando que mulheres que trocam a maternidade por suas carreiras e rejeitam as tarefas do lar são “meias mulheres”, e que isso representa “perder sua liberdade” e “sua feminilidade”.

O Blog Família Plural foi atrás de histórias em que, por diferentes razões, o sexo feminino decidiu seguir seu caminho sem que a maternidade fizesse parte de suas vidas.

Como quase todas as meninas durante a infância, a jornalista e consultora de comunicação Paloma Vega, 41, brincou de casinha e sempre pensou em ter uma família que, como ela mesma diz, ao “estilo propaganda de TV”. Porém, um fato ocorrido aos seus 20 e poucos anos mudou para sempre seu ideal de família perfeita. Duas tias próximas faleceram, deixando para trás filhos em tenra idade. “Isso foi meio traumatizante para mim, pois pensei: se você tem filhos não pode morrer”, comenta.

Além dessa questão, durante o período em que foi casada, já com 35 anos, Paloma e seu companheiro conversaram sobre se tornarem pais, no entanto, neste momento, ela se deparou com outro ponto que seria relevante em sua escolha para a maternidade: “eu não sentia segurança de que teria a ajuda efetiva e necessária para a criação desse filho”.

Paloma Vega, jornalista e consultora de comunicação

Paloma Vega, jornalista e consultora de comunicação

Para Tica Moreno, socióloga e feminista integrante da Sempreviva Organização Feminista (SOF) e militante da Marcha Mundial das Mulheres (MMM), muitas pessoas acreditam que como o ser feminino possui condições biológicas de se reproduzir, seria o destino natural ser mãe. Ela pontua que, independentemente de ser por carreira ou qualquer outro motivo, o simples fato de uma mulher decidir pela não maternidade já é o suficiente. “Essa visão de quem acha que nossa determinação biológica de poder ter filho deveria definir a maternidade como uma prática, é a mesma visão que constrói, a partir das diferenças biológicas entre homens e mulheres, a nossa desigualdade social”, comenta a socióloga.

E não foi apenas a carreira que impediu Paloma de ir adiante com o sonho de infância, talvez este tenha sido o menor dos impedimentos. Outra indagação que ela constantemente se fazia era se conseguiria ser a mãe que a sua própria havia sido para ela, ou seja, se poderia ter uma dedicação 24 por 7 (24 horas, sete dias por semana) e efetivamente participar, com totalidade, da vida deste filho. “Levar à escola, ajudar com a lição de casa, saber, apenas olhando, se está bem ou não, incentivar no esporte, incentivar esta pessoa a ser independente. Acredito que não poderia, por isso optei pela não maternidade”, explica. Além disso, tendo hoje 41 anos, colocou na balança que, para oferecer o mínimo que seus pais deram a ela, teria de ser economicamente ativa até os 65 anos. “É uma responsabilidade muito grande. Foi uma decisão pragmática, prática e que, junto com uma questão de idade, decidi não ter filhos. Nunca foi algo relacionado a perder minha liberdade ou de não querer cuidar. Sempre esteve ligado à qualidade de educação que eu daria, ao tempo que teria para dedicar a esta criança versus meu tempo de vida.

Entretanto, Paloma acredita que não importa qual seja a causa de sua opção, “faça o que fizer, a mulher sempre será julgada. Não importa a sua decisão”. Para a consultora, a misoginia, colocar a mulher em um papel de subjugada, renegada ao papel de “recatada e do lar” sempre existiu, e só deixará de ser assim quando as mulheres conseguirem ensinar aos seus maridos e, principalmente aos filhos, essa posição de igualdade entre os gêneros, mostrar que “ a mulher tem, sim, liberdade para escolher o que quer”.

Já a artesã Melissa Sígolo, de 36 anos, decidiu não ter filho porque, segundo ela, é uma responsabilidade muito grande para a qual diz não se sentir preparada. “Adoro crianças, mas também adoro não ter de ser responsável por uma”, afirma. Essa ideia foi amadurecida junto com o marido, com quem é casada há 5 anos – o dois têm um relacionamento desde 2003. “Nós dois não nos sentimos aptos ou dispostos a ser pais. Já conversamos muito sobre esse assunto e temos total sintonia”, ela completa.

Os parentes mais velhos, no entanto, não conseguem entender sua opção. Respeitam, mas não aprovam, Melissa conta. “Minha mãe respeita, entende e apoia, meus irmãos também. A maioria dos amigos também encara com naturalidade essa opção, e vários dos que ainda não são pais flertam bastante com a ideia de não ter filhos. Entre os que já são pais, é claro que há aqueles que tentam nos persuadir a mudar de ideia, com os argumentos dos mais clichês como ‘só serei uma ‘mulher completa’ sendo mãe’, mas há também os que dizem que fizemos a escolha certa”.

A artesã Melissa Sígolo

A artesã Melissa Sígolo

Isso não significa que Melissa nunca tenha cogitado a maternidade. Quando era criança, cuidava das bonecas como quem cuida de bebês e, na adolescência, chegou a escolher nomes para os filhos que imaginava que teria quando adulta. No entanto, segundo ela, quanto mais o “momento de ser mãe” foi se aproximando, mais a ideia de não ter filhos foi amadurecendo. “Percebi que nunca tive desejo de ser mãe, gerar, parir, amamentar… nada no processo me atraía realmente. Percebi que, para mim, pensar em ‘ser mãe’ era meio que automático, e não realmente um desejo meu”.

Sobre a declaração do presidente turco, de que mulheres que não têm filhos são incompletas, Melissa diz que sabe que há coisas que jamais saberá, como, por exemplo, é acordar várias vezes na madrugada durante meses para cuidar do bebê ou como é a emoção da primeira homenagem na escolinha no Dia das Mães. “Mas não me considero incompleta por conta disso. Acho que é questão de gosto. Escolhas e oportunidades”, afirma. “O que me deixa incompleta é deixar de seguir minhas vontades, minhas escolhas. Ou ser impelida a ir contra elas”.

Sociedade Patriarcal, Política e Religião

Para Lia Zanotta Machado, pesquisadora do Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre a Mulher (Nepem), da Universidade de Brasília (UnB), e também professora titular no departamento de antropologia, as declarações do presidente da Turquia não são de cunho pessoal, mas político. “Ele pertence a um partido extremamente conservador e seu discurso aponta, no que se refere à política, o que ele intenta ou gostaria de fazer, se opor às conquistas femininas”. Segundo a professora, embora seja um Estado laico, a Turquia possui uma cultura tradicional islâmica muito forte. “Há uma postura religiosa que acena para a volta de uma tradição rígida islâmica”, comenta.

Professora Lia Zanotta Machado, da UnB

Professora Lia Zanotta Machado, da UnB

A antropóloga explica que, no Brasil, durante séculos e por lei, cabia à mulher obedecer ao seu marido em tudo o que fosse ‘justo e honesto’. “Você tinha uma família totalmente hierarquizada e o ‘justo e honesto’ era definido pelos homens. As mulheres pediam autorização para trabalhar, quem escolhia o local de moradia era exclusivamente o homem, para viajar precisava da permissão do marido, e por aí vai”. A estudiosa comenta que a expectativa sempre é que as mulheres obedeçam e, para ela, esse lado tradicional da família ainda perdura no Brasil. “É como se as mulheres fossem cidadãs de segunda categoria. E para se aproximarem dos homens, serem mais legítimas, precisam superá-los”.

Para Tica Moreno, da SOF, muitas vezes as pessoas fazem parecer que apenas o islamismo vem com seus fundamentalismos. Ela ressalta que o que temos visto por aqui é que o cristianismo também vem com seus fundamentalismos religiosos, seus dogmas e isso envolve a vida e a autodeterminação das mulheres. “Hoje, vemos no poder político uma série de homens, de diferentes religiões, que têm diferentes opiniões sobre o que as mulheres devem fazer, sobre nosso corpo, nosso comportamento, sobre a maternidade. Então, vemos esses homens sendo extremamente misóginos e impedindo os direitos das mulheres. O que está muito forte, por exemplo, é a questão do aborto, que para nós tem tudo a ver com a maternidade. Ser mãe ou não é uma decisão a ser respeitada, cada mulher precisa ter seu direito garantido. E de não ser julgada, desqualificada”.

Tica Moreno, da SOF

Tica Moreno, da SOF

Ela destaca ainda que a sociedade e as famílias sempre questionam garotas na casa dos 20 aos 30 aos sobre relacionamento com perguntas como “onde está o namorado?”, “quando casará?”, “quando terá um filho?”. “Isso é um ideal familiar imposto pela sociedade patriarcal, como se essa fosse a ordem natural das coisas. Quando, na verdade, não é o natural, pois para serem mulheres inteiras elas não precisam casar com um homem, elas podem se relacionar com mulheres, não importa se são hetero, homo, bi, podem decidir por não casar, podem decidir sim ou não pela maternidade. Este tipo de pensamento machista faz com que sejam sempre os outros que queiram controlar e definir o que as mulheres querem fazer. E o feminismo luta por essa autonomia e liberdade”, explica Tica.

Para a empreendedora Andréa Lopes, de 42, que também optou por não ser mãe, a mulher é cobrada por isso porque vivemos numa sociedade machista. “Diariamente, as notícias nos mostram isso. Parece que temos de cumprir o tal ritual: namorar, estudar, se formar, noivar, casar, ter filhos, trabalhar. Ainda nos dias de hoje incluíram o trabalhar, no que antes nosso roteiro só beirava as tarefas domésticas”, avalia ela. “Então, nos cobram mais tarefas e, para mim, dentre essas cobranças, a de ser mãe é a mais cruel, porque vem com pré-julgamentos relacionados à falta de capacidade de amar ou cuidar de um filho. Outra coisa: a sociedade se preocupa sobre quem vai cuidar de mim quando eu ficar velha. Já ouvi esta pergunta. Filho para mim também não é garantia de que você vai ter alguém para te amparar na velhice”.

Andréa conta que tomou essa decisão por causa, principalmente, da situação econômica e da violência em São Paulo, onde ela vive. “Apesar de ser de uma família muito simples, sempre tive com muito sacrifício dos meus pais o melhor acesso à educação e à saúde. Nos dias de hoje, sei que teria muita dificuldade em proporcionar a um filho o mesmo que eu pude receber”. Andréa chegou a ter uma gravidez não planejada em 1999, mas perdeu o bebê. “Independentemente disso, eu nunca tive o sonho de ser mãe. A sensação que tenho é que não nasci para isso”.

A empreendedora Andréa Lopes

A empreendedora Andréa Lopes

Ela conta com o apoio e o respeito da família, e os amigos, em geral, também entendem. Mas nem todos. “Tive duas pessoas como ‘amigas’ que já me disseram na cara dura que a decisão foi pela frustração de ter perdido meu bebê. Algumas me excluíram de convites e já explicaram que é porque não combina muito quem não tem filhos ir a festas de crianças”.

Na opinião dela, a declaração do presidente turco foi machista. “Ele não entende nada sobre o amor. Ele não é mulher. A mulher por si só é completa, independente”, contesta. “Foi uma declaração de quem desconhece as possibilidades que o ser humano tem de se sentir completo, praticando o seu amor de várias outras formas. Ser mãe não é garantia de se transformar numa mulher completamente realizada”.

Colaborou Adriana Del Ré

Envie pautas e sugestões para o e-mail familiaplural@estadao.com.br