O cantor e compositor Geraldo Azevedo, de 74 anos, é pai de quatro filhos. E os quatro são seus parceiros na vida e no trabalho. Sua filha mais velha, Gabriela Azevedo, de 46, tornou-se sua empresária, enquanto o percussionista Lucas Amorim, de 43, o baterista e percussionista Tiago Azevedo, de 37, e a cantora Clarice Azevedo, de 33, o acompanham em sua banda.

“A caçula, Clarice, começou bem pequena, fazendo duetos em produções profissionais, como o songbook do Chediak e um álbum em homenagem ao Galo da Madrugada, com uma composição que fizemos juntos. Ela era bem pequena”, lembra Geraldo. “Lucas foi o primeiro a integrar profissionalmente a banda, numa turnê que fiz com Zé Ramalho. Tiago entrou na banda já nos anos 2000. Gabriela entrou efetivamente em 2010, mas antes fazia uns frilas comigo, enquanto se dividia em outras produções.”

No caso de Gabriela, que cuida dos negócios da família nos bastidores, a relação profissional com pai começou em 2008, produzindo os dois primeiros DVDs do músico. No ano seguinte, fez parte da produção de uma turnê na Europa. “Em 2010, entrei efetivamente para trabalhar no escritório desenvolvendo projetos e contribuindo nos assuntos relativos a produtos, direitos autorais e assessoria de comunicação”, conta ela.

Geraldo e os filhos Clarice, Gabriela, Tiago e Lucas. Foto: Acervo pessoal

Para o clã Azevedo, há profissionalismo entre eles quando o assunto é trabalho, mas, mesmo nesses momentos, é difícil ignorar a relação afetiva entre pai e filho. “Não dá para falar que muda, nunca vou deixar de ser o pai deles. Busco ser o mais profissional possível, mas nem sempre o lado racional fala mais alto. Mas quero resultados e os cobro bastante”, diz Geraldo. “Eu, particularmente, não acho que mude. Só soma, pro bem. Sempre tento ser o mais profissional possível, chegando no horário, investindo no figurino e entendendo o show como um todo”, afirma Clarice.

Para eles, a vantagem de trabalhar juntos está na convivência do dia a dia, e o aprendizado que essa proximidade traz. “Tenho a oportunidade de trabalhar com grandes músicos e tocar músicas nordestinas de raiz, mesmo sendo carioca. E isso me trouxe uma boa bagagem de ritmos nordestinos”, diz Tiago.

E as desvantagens?Eles sempre me pedem adiantamento de cachê… (risos)”, diverte-se Geraldo.

Aliás, o fortalecimento dos laços e o constante aprendizado são os aspectos mais destacados por pais e filhos que trabalham – ou trabalharam – juntos.

“Só posso falar de como ele me ensina. Sua determinação, seu humor, sua inteligência e seu enorme talento me ensinam todos os ensaios e apresentações. Tiago é sempre surpreendente!”, diz o ator e diretor Daniel Herz, de 55 anos, ao falar de seu filho, o também ator Tiago Herz, de 25.

Daniel dirige o filho no espetáculo Isso Que Você Chama de Lugar, que reestreou no Teatro Cesgranrio, no Rio, onde fica em cartaz até 25 de agosto. Em cena, quatro atores contam quatro histórias, que, às vezes, parecem ser a mesma história, mas são sempre histórias diferentes.

Tiago e Daniel Herz. Foto: Dalton Valerio

Tiago conta que houve três diferentes marcos iniciais de parceria de trabalho entre ele e o pai. “A primeira foi em 1998, quando eu tinha 6 anos e atuei na montagem de O Círculo de Giz Caucasiano, de Bertolt Brecht. Meu pai dirigiu esse espetáculo.”

Aos 16 anos, ele foi aconselhado por uma professora de teatro que, se quisesse continuar na profissão, deveria procurar os dois melhores professores de teatro que ela conhecia: justamente seu pai, Daniel, e sua mãe, Susanna Kruger. O ator hesitou, mas aceitou o desafio. Afinal, eram seus pais. “O terceiro e último marco foi quando passei a trabalhar como assistente de direção de meu pai e também como ator em seus espetáculos. Podemos dizer que nossa parceria já tem mais de 20 anos.”

Os dois garantem que não conhecem o lado desvantajoso desse trabalho em parceria. “Poder experimentar uma relação de pai e filho em outro lugar da vida é uma sorte. Posso não apenas amar meu pai como pai, mas também admirá-lo como profissional e ser humano”, diz Tiago.

Da arte para o campo empresarial, Claudio Zini, de 70 anos, diretor-presidente da Pormade Portas, fundada em 1939, conta com seus dois filhos na empresa, o diretor comercial Daniel Zini, de 45, e o diretor industrial Rafael Zini, de 40.

“O correto é ser essencialmente profissional. E, para isso, o filho deve iniciar o trabalho em outras empresas, inclusive para descobrir a sua vocação. Após essa descoberta, verificar se existe a atividade na empresa do pai, pois o segredo do sucesso é amar o que se faz”, acredita Claudio. “A vantagem de trabalhar junto é estar em família. E uma família bem estruturada é um dos segredos da felicidade.”

Família Zini: Daniel, Claudio e Rafael. Foto: Divulgação

Para Rafael, no campo do trabalho, a relação entre pai e filhos muda, porque “passamos a cobrar um do outro as responsabilidades do dia a dia”. “Ignoramos uma certa intimidade para cobrar resultados, pois ocupamos cargos de liderança, e muitas pessoas dependem das decisões que tomamos diariamente”, diz ele.

Daniel concorda com o irmão. “Está bem claro para nós, filhos, a distinção de chapéus. E sabemos bem que tem sócio, tem patrão. E entre sócios cooperação e não competição. Os herdeiros recebem uma missão para desenvolver o negócio da família e entregar algo maior ainda para a próxima geração”, comenta.

Relação franca. A estudante Lara, de 18 anos, não trabalha no dia a dia na empresa do pai, a Yantra Imagens, mas conhece muito bem sua rotina. E, a pedido dele, o fotógrafo Ricardo Lisboa, de 39, trabalhou como freelancer de assistente de produção em um evento. Ricardo precisava de mais uma pessoa na sua equipe e a chamou. “Ela ajudava a resolver os problemas durante a gravação, desde autorização de uso de imagem até ir atrás de uma bateria.”

“Eu sabia fazer o básico, eu sempre pude ver de perto, conhecia o dia a dia. Mas foi legal ver como imagem se forma, entender a parte da iluminação”, lembra Lara. “Eu já sabia o que era, mas nunca estive tão dentro.”

Ricardo Lisboa e a filha Lara. Foto: Ricardo Lisboa

Durante o evento, Ricardo coordenou uma equipe especializada em fotos e vídeo formada por 7 pessoas, dirigindo, fazendo atendimento e produção. “A ideia de chamar a Lara foi para envolver ela no dia a dia do meu trabalho”, conta ele. Ricardo lembra que com seu pai não era assim, por isso, ele queria que fosse diferente com a filha. “Eu ficava imaginando o que meu pai fazia, isso cria uma certa idealização, uma distância. Não acho que isso cria vínculo tão forte de pai e filho em relação a trabalho do que chamar para perto, para estabelecer esse vínculo real”, pondera. “Ele era gerente de processamento de dados. Mas eu não sabia o que ele fazia.”

Na realidade, Ricardo sempre deixou a filha a par de suas decisões. Até 29 anos, ele trabalhava com TI, dentro de uma empresa. “Mudei de profissão, larguei porque eu queria fazer algo que eu gostasse. A Lara tinha 7 anos, e apesar de ela ser criança na época, não precisava fantasiar, sempre deixei ela a par, batalhei com a empresa do zero.”

Lara acredita que essa proximidade entre ela e o pai, e a forma franca com que ele sempre tratou essas questões, é importante neste momento em que ela faz cursinho e tem de escolher uma profissão. A estudante não planeja seguir a carreira do pai. Ela chegou a pensar em fazer Medicina, mas acredita que será mais feliz cursando História. “Eu não seria quem eu sou se não tivesse um pai assim”, conclui Lara.