Mariana teve de abandonar todas as suas atividades depois de Vítor ingerir soda cáustica e passar três anos entre idas e vindas do hospital.

Há dois dias de completar seu primeiro ano de vida, Vítor sofreu um acidente na casa de sua avó paterna que mudaria a sua vida e também a de sua mãe, Mariana Chaves. A avó preparava um sabão caseiro e, na correria para “ajeitar” o almoço para todos os netos que ali se encontravam, deixou um copo com resquícios de soda cáustica em cima de uma cadeira. Vítor, que estava sozinho no quintal, alcançou o tal copo e ingeriu o líquido.

Mariana também estava na casa da sogra no momento do acidente e contou ao blog que, em momento algum, se culpou ou culpou a avó do garoto pelo ocorrido. Disse que, em seus momentos de reflexão, sempre pedia para não guardar nenhuma mágoa. “O copo não foi deixado ali de propósito, não queria ficar com raiva, ter ressentimento. Com o acidente passei a olhar a vida por outro ângulo. Mudei muito como pessoa, passei a enxergar sempre o outro lado das histórias. Me aproximei muito da minha mãe. Não tínhamos uma boa relação e, hoje, ela é meu porto seguro, meu braço direito”.

A vida de Mariana e de sua família deu uma virada com o acontecimento. Vítor ficou mais de 60 dias internado, quase todo o tempo na UTI. A soda cáustica queimou e estreitou o seu esôfago, prejudicando a deglutição e impedindo a passagem dos alimentos. Mariana relata que os médicos realizaram uma série de procedimentos e tratamentos endoscópicos com anestesia geral. “Nos primeiros dois dias ele ficou sedado por conta da dor. Quando entrou na UTI para fazer os procedimentos, o primeiro aparelho não passou no esôfago, pois já estava fechado. O médico disse que talvez meu filho nunca mais pudesse comer pela boca. Aquilo me deixou arrasada”, relembra Mariana.

Rafael e Mariana celebrando os quatro anos do filho Vítor (centro)

Rafael e Mariana celebram os quatro anos do filho Vítor (centro)

Por conta da gravidade do acidente, ela precisou deixar o trabalho para cuidar do filho em tempo integral. Ele parou de se alimentar pela boca e passou a usar uma sonda. “Tive de largar tudo, pois como ele engasgava e tinha muito refluxo, todo mundo ficava receoso em ficar com ele. Além disso, a alimentação também precisava ser especial”.

Mesmo depois de receber alta, Mariana tinha de levar Vítor ao hospital a cada 15 dias para fazer uma dilatação em seu esôfago. “Sair com ele era difícil por conta da sonda. As visitas eram poucas e me tranquei bastante. A autoanálise foi muito importante para eu não entrar em depressão. Eu não tinha mais nada: trabalho, dinheiro, amigos, o marido sempre trabalhando. Eu era a força do meu filho e ele a minha. Via a situação dele e pensava: quem sou eu para me deixar cair neste momento. Caía, mas levantava e seguia adiante”.

Virando a mesa

Em fevereiro deste ano, aos quatro anos, Vítor fez uma cirurgia para a retirada do esôfago. Depois de uma adaptação, ele começou a ingerir líquido e comidas pastosas pela boca. Foi então que Mariana decidiu que era chegada a hora de retomar sua vida, após três anos de dedicação em tempo integral ao filho.

A virada começou quando conheceu um projeto idealizado por uma amiga da faculdade de psicologia, o Renascendo Após a Maternidade, um coach para mães que, por meio de três passos, auxilia a mulher no resgate de todos os seus demais papéis sociais (profissional, esposa, filha, amiga), sem terceirizar a educação dos filhos e sem culpas.

Idealizado e desenvolvido por Bianca Amorim, que além de mãe é psicóloga perinatal e life coach, o programa nasceu da percepção da profissional para suas próprias necessidades e dificuldades em lidar com algumas situações após se tornar mãe, como, por exemplo, retomar sua vida social, profissional, ter tempo para o marido e, principalmente, tempo para si própria. “Não achava muito material falando sobre essa transformação, sobre se redescobrir. Tive um insight e percebi que as ferramentas do coach poderiam ajudar as mulheres neste planejamento pós-maternidade e auxiliá-las nas tomadas de decisão para se reinventarem”, explica Bianca.

A coach de mães Bianca Amorim

A coach de mães Bianca Amorim

Tudo começou em julho de 2015, com uma página no Facebook e, hoje, Bianca promove palestras, workshops presenciais, atendimentos individuais, já produziu um e-book e, recentemente, lançou o Programa Renascendo após a Maternidade online, do qual Mariana fez parte.

O projeto tem como base três passos:

1 – Autoconhecimento: segundo Bianca, a mulher já não se conhece antes da maternidade e após tantas transformações ela se perde de vez. É fundamental se conhecer, entender essa transformação e aprender a lidar com elas. Quando a mulher se conhece tem mais segurança, os desafios continuam a existir, mas as respostas são diferentes.

2 – Rede de Apoio: Bianca explica que sem isso não é possível renascer, se redescobrir. Essa rede é formada pelo companheiro ou companheira (principal elemento para aquelas que são casadas), familiares, escola de confiança, babá. Para as mulheres que não vivem perto de parentes ou não têm condições financeiras para manter uma babá ou pagar uma escola, Bianca ajuda a montar essa rede de apoio, a ter conexões.

3 – Ação: o terceiro passa que a psicóloga e coach coloca como essencial é a mulher se colocar em ação, tirar as ideias da cabeça, do mundo da imaginação, se movimentar para alcançar os objetivos, os sonhos. “Isso só é possível se ela seguir os dois primeiros passos, pois todos estão integrados”, explica.

Atualmente, o grupo de coach conta com 19 mães de todo o Brasil. Em primeiro lugar, as participantes definem seus objetivos, depois assistem aos vídeos disponibilizados por Bianca no programa e ela mapeia as ações que cada uma terá de colocar em prática para atingir sua meta. “Tenho como controlar esses passos e saber em qual estágio cada uma está, dessa forma consigo fazer devolutivas individuais e estimular que elas façam as tarefas semanais. Elas também contam em nosso grupo no Facebook o que vão fazer. Compartilham experiências e se ajudam o tempo todo”, conta Bianca.

Mariana diz que a experiência com o coach tem sido muito positiva. “Tem me ajudado muito no sentido de organização, de estabelecer metas. Compartilhar experiências com as outras mães do grupo também ajuda muito, pois enxergo nelas uma janela, uma nova forma de ver as coisas”.

Ao final do programa, Mariana espera tornar realidade todas as suas metas: conseguir um emprego, recuperar a relação com o marido, que durante todo este tempo ficou muito desgastada, e ter mais paciência com o filho. “Sempre quis ser mãe, mas nunca me imaginei sendo mãe em tempo integral. Quero voltar a estar satisfeita comigo. E o coach tem me ajudado neste sentido”.

Como psicóloga, Bianca diz que, de modo geral, sente que as mulheres, em alguma instância – máxima ou mínima -, sofrem transformações com a maternidade. “Algumas adoecem, surge a depressão. Mesmo depois de fortalecidas emocionalmente precisam de ajuda para entender essa nova vida, é aí que entra o coach. Queremos desmistificar a maternidade cor-de-rosa. Nosso objetivo também é mostrar o lado B da maternidade”, finaliza Bianca.

A próxima turma para o Programa Renascendo Após a Maternidade online está prevista para março de 2017. A duração é de três meses.

Comentários e sugestões de pauta podem ser enviados para os e-mails familiaplural@estadao.com e familiaplural@gmail.com.