Neste dia 25 de maio, Dia Nacional da Adoção, contamos a história do casal Alexandre e Cristina, que adotou Paula, hoje com 13 anos

 

Ainda na juventude, Alexandre e Cristina de Fátima, nascidos na periferia da Zona Leste de São Paulo, decidiram se casar. Ele com 19 anos e ela com 17. Como todo jovem casal, tinham muitos sonhos e planos, sendo um deles adotar uma criança negra.

A vontade de ter um filho negro surgiu por acreditarem que a diversidade é o caminho para um mundo com mais respeito, amor, encontros e igualdade. “Afinal, somos diferentes, mas ao mesmo tempo iguais. Também achávamos que havia muitas crianças negras nas ruas, abandonadas, então esse desejo foi crescendo dentro de nós”, comenta Alexandre.

O objetivo do casal sempre foi ter dois filhos biológicos e dois adotivos, mas antes de dar início a este projeto tinham como meta terminar os estudos e construir uma carreira. E assim aconteceu. Depois de 12 anos de casamento, nascia o primeiro herdeiro do casal, Nicolas.

Foto recente da família: Nicolas, Alexandre, Cristina e Paula/ Arquivo Pessoal

No meio do percurso da vida profissional, Cristina recebeu uma proposta para trabalhar no Rio de Janeiro, e lá foram eles para este novo desafio.

Já instalados no novo Estado, ambos trabalhando e Nicolas com pouco mais de um ano, Cristina um dia saiu do trabalho e se deparou com uma moradora de rua e sua filha recém-nascida, Paula, que tinha cinco meses.

Num impulso, parou, conversou com a mulher e perguntou se poderia levar a menina para casa, dar banho, comida, cuidar dela e depois trazê-la de volta. A mãe de Paula disse que sim, mas que Cristina precisaria falar primeiro com o pai da criança. Ela aceitou. Perguntou onde eles viviam, passou no trabalho de Alexandre para pegá-lo, disse que queria mostrar algo a ele, mas não falou o que era. “Só quando chegamos aos Arcos da Lapa ela disse que era a criança. Foi aí que eu conheci a Paula. Falamos com os pais, explicamos que queríamos cuidar dela, estávamos com o Nicolas junto, e eles simplesmente concordaram. Falei que íamos cuidar dela e que a levaríamos de volta na seguinte. E assim foi”, conta Alexandre.

Quando retornaram na manhã seguinte, perguntaram ao casal morador de rua se precisavam de algo. Pediram roupa e alimentos. Quando Alexandre e Cristina retornaram para entregar o que tinham comprado, o local onde os pais biológicos de Paula viviam estava um caos, tinha chovido e o pai da menina perguntou se eles não poderiam leva-la novamente para a casa deles. “Eu disse que sim, mas que não a levaria de volta no dia seguinte, só uma semana depois. A cada uma semana levávamos ela lá para eles verem”, relembra Alexandre.

Família reunida quando os filhos ainda eram crianças/Arquivo Pessoal

Na época, Paula ainda não tinha nenhum documento, apenas os papéis da maternidade. Alexandre conversou com os pais dela e disse que precisavam regularizar isso. Disse para sua esposa passar no local onde viviam durante a semana, pegá-los e leva-los ao cartório para registrar a menina. Depois disso, o tempo de visita de Paula aos pais biológicos foi ficando mais espaçado, pulou de semanal para quinzenal e depois para uma vez por mês.

Em uma dessas visitas, a família chegou ao local e descobriu que o pai de Paula havia jogado ácido na mãe. Ele era dependente de álcool e ela de drogas, começaram uma briga que resultou na agressão. “Depois disso começamos a ir lá sem levá-la. Decidimos que precisávamos entrar com o processo para a adoção”.

Depois de três meses de brigas e discussões, a mãe de Paula decidiu sair da rua e voltar para a casa da família. Uma semana depois, a polícia o prendeu o pai da menina por tráfico de drogas. “Mas ele não estava traficando, estava na rua, com um grupo que estava vendendo drogas e acabou entrando no bolo”, explica Alexandre, que foi atrás para saber onde ele estava preso e pedir que assinasse os documentos para a adoção. “Fui visitá-lo umas quatro vezes no presídio, expliquei a ele que queríamos proporcionar uma vida melhor para a Paula, que ela pudesse ter os mesmos direitos que nosso filho Nicolas. Foi quando ele assinou um documento para termos direitos sobre a criança”.

Após um curto período na casa da família, a mãe da Paula retornou às ruas e Alexandre e Cristina passavam lá para visitá-la, mas depois começaram a se afastar.

Unidos: Nicolas e Paula estão sempre juntos/Arquivo Pessoal

“Depois que entramos com o pedido de adoção, o conselho tutelar começou a investigar nossa família e também a da Paula. Começamos com uma guarda provisória de 3 meses. O processos durou uns seis anos, pois a mãe dela havia desaparecido”.

A família decidiu, então, pedir ajuda a um amigo advogado, que entrou no processo e conseguiu acelerar, já que Alexandre havia recebido um convite para trabalhar em Portugal e precisava definir o que faria. Diante disso, a juíza concedeu a guarda definitiva. “No final, a ida para Portugal não aconteceu, pois recebi outra proposta para ficar no Rio e aceitei”.

Falando de adoção com os filhos

A mãe de Alexandre descobriu aos 10 anos de idade que era adotada e sempre comentou com ele o quanto tinha sido ruim não ter descoberto antes. Por isso, ele e Cristina sempre conversaram com Paula sobre ela ser adotada. “Não podíamos tirar da criança a sua história de vida. É algo que ela vai aprender a conviver. O caminho mais certo é falar a verdade”.

No período de seis anos que durou o processo, a família descobriu que Paula tinha mais oito irmãos. “Começamos a procurar por eles, descobrimos três. Uma ficou com um tio e outros dois viviam em orfanatos diferentes – uma menina e um menino. Minha esposa queria adotar a irmã dela. Decidimos dar um tempo, se ninguém adotasse essa irmã, nós a adotaríamos, mas ela já estava em processo de adoção e conseguiu uma família”. Depois de alguns anos, voltaram a ter contato com as duas irmãs e, hoje, Paula conviver com ambas, se falam constantemente ao telefone. Como moram longe, os encontros são mais ocasionais.

Pais brancos, filha negra

Atualmente, Paula tem 13 anos e, durante o período em que está com Alexandre, Cristina e Nicolas, já passou por momentos de racismo. Uma vez, em um resort em que a família passava férias, as crianças brincavam na piscina e os pais tiraram seus filhos de perto dela.

“Sempre conversamos, explicamos para ela. Não damos ênfase à discriminação, e mesmo que façam algum tipo de comentário, muitas vezes ela não percebe. Criamos ela para ser parte do mundo”.

Alexandre comenta que, vez ou outra, Paula diz que gostaria de ser branca, de ter cabelo liso. “Isso porque a referência de mundo que ela tem é de gente branca. Quando não se tem referências na TV, na profissão, não há a identificação. Quando você nasce em um lugar que tem negros ao redor, um deles pode ser sua referência, quando não, a sua referência é branca e é difícil entender que você também é parte daquele mundo”, reflete Alexandre.

Os números da adoção no Brasil

Hoje, no Brasil, há 8,7 mil crianças e adolescentes em busca de um lar e 43,6 mil pretendentes cadastrados no Cadastro Nacional de Adoção (CNA), coordenado pela Corregedoria do Conselho Nacional de Justiça desde 2008. Na última década, mais de 9 mil adoções foram realizadas. Só no período de janeiro a maio de 2018, 420 famílias foram formadas com o auxílio do CNA.

Esses números poderiam ser maiores. De acordo com a advogada de Direito de Família, Talita Facina, coordenadora da área cível do escritório Cintia Lima advocacia e assessoria Jurídica, a burocracia existe, mas não é o único fator para a demora dos processos. “Os pretendentes preenchem uma ficha em que descrevem gênero, idade, dentre várias outras características da criança pretendida. Tais exigências, juntamente com todas as etapas do processo de adoção, podem dificultar a finalização de todo o trâmite”, e completa, “podemos exemplificar com os dados estatísticos que o maior número de crianças disponíveis para adoção, hoje, são maiores de cinco anos, negras, e com irmãos, o que faz com que as exigências dos pretendentes não cruzem com tais dados”.

A advogada Talita Facina: “burocracia existe, mas não é o único fator para a demora dos processos”/Divulgação

Para a advogada, “os procedimentos por vezes são demorados porque devem seguir todos os passos, o que também depende dos pretendentes cumprirem todos os requisitos estabelecidos e, quando há dificuldades no cumprimento de tais requisitos, faz com que todos os procedimento se tornem mais demorados”, finaliza.

Acelerando os processos

A partir deste ano, um novo modelo de cadastro permitirá que pretendentes à adoção façam uma busca mais rápida e ampla de crianças. Dentre as atualizações aprovadas por servidores e magistrados que participaram de debates nas cinco regiões do País este ano, organizados pela corregedoria, estão a Busca Inteligente: varredura automática diária entre perfis de crianças e pretendentes, informando ao juiz; emissão de alertas para a corregedoria em caso de demora nos prazos dos processos com crianças acolhidas; cadastro dinâmico, com atualização facilitada e acesso dos pretendentes por login e senha; busca de dados aproximados do perfil escolhido para ampliar as possibilidades de adoção, entre outros (veja quadro abaixo).

Outra novidade é a junção dos cadastros de adoção e o de crianças acolhidas, de forma a possibilitar a pesquisa sobre o histórico de acolhimento da criança, anexando informações como relatório psicológico e social, além de fotos, vídeos e cartas.