O Família Plural conta três histórias em que, por diferentes circunstâncias, a figura materna teve de ser substituída.

Dizem por aí que ser avó significa ser duas vezes mãe. Está aí uma verdade, pois muitas têm um importante papel juntos aos seus filhos e filhas na árdua tarefa de criar seus bebês, ocupando não apenas sua real função, mas também atuando como babás, amigas, conselheiras. Quase sempre são as avós quem auxiliam as filhas, mães de primeira viagem, nos tratos iniciais com suas crias. E continuam a dar suporte no decorrer dos anos, acompanhando de perto o crescimento dos netos.

Uma história de avós que criam netos como se fossem os pais biológios veio à tona durante as Olimpíadas Rio 2016. A ginasta norte-americana, Simone Biles, e seus irmãos, foram tirados de sua mãe pelo conselho tutelar por ela ter problemas com drogas. O avô paterno, Ronald Biles, e sua esposa Nellie decidiram, então, adotar Simone e uma de suas irmãs, os outros dois netos foram viver com uma irmã dele. A atleta, que vem dando o que falar durante os Jogos Olímpicos por sua performance, considera Ronald e Nellie seus pais e os trata como tal, chamando-os de pai e mãe.

O Família Plural foi em busca de histórias em que, por diferentes razões, as avós passaram a ocupar o papel de mãe na vida de seus netos. Na reportagem, três famílias compartilharam suas emocionantes experiências de amor, gratidão e aprendizado com o blog.

Avó, mãe e amiga
Perto de completar sete anos, Victóra Ragazzi perdeu a mãe, Regina, para um quadro crítico de pneumonia. Ela possuía baixa imunidade e acabou falecendo. Na época, os pais eram separados e Victória tinha pouco contato com o pai. Assim, foi automaticamente para a casa da avó materna, com quem tinha uma relação muito esteita desde o nascimento. Neste período, o pai entrou com o pedido de guarda, mas não conseguiu. “Eu sabia que minha mãe vinha de um tratamento que não estava mais funcionando, ninguém nunca me escondeu nada. O meu pai nunca me procurou, nem ao enterro ele foi. Não tinha sentido eu ficar com ele”, explica Victória.

A jovem, que atualmente está com 20 anos, conta que mesmo com altos e baixos e com algumas discussões ao longo de seu crescimento, a pessoa mais importante de sua vida é Marlene Ragazzi, 78. Comenta que a avó é a grande responsável por quem ela é hoje, que sempre fez o papel de mãe em sua vida, oferecendo proteção e também limitadores quando necessário. “Todo mundo diz que somos parecidas, somos geniosas. Fui conquistando minha liberdade aos poucos, nunca me revoltei com nada. Minha avó e eu sempre resolvemos tudo na base da conversa. Sei que desde que cheguei à sua casa ela passou por muitas dificuldades, pois já tinha dois filhos adultos e teve de começar do zero comigo. Acredito que este tenha sido um grande desafio”, comenta a jovem.

Victória e sua avó Marlene em seu aniversário de 16 anos.

Victória e sua avó Marlene em seu aniversário de 16 anos.

A avó diz que ela e a neta são grandes amigas, que a tem como sendo mais do que uma filha. “Tivemos muitas dificuldades, mas sempre aceitei tudo o que aconteceu e levei minha vida. Além disso, prometi para a minha filha que se foi que cuidaria da Victória e não deixaria de fazê-lo”, comenta Marlene, e completa “minha casa é uma comunidade, todos se comunicam e a Victória nunca me deu nenhum trabalho. Às vezes ficava mais reclusa e deixávamos, sabíamos que era por conta da mãe”. A avó comentou que, mesmo quase nunca mencionarem o nome de Regina em casa, Vitória tem muitas características da mãe. “De vez em quando eu falo: sua mãe se foi, mas ficou você que é o retrato dela. Ela tem os mesmos gostos da mãe”.

Quando questionada sobre o pai, se não tem vontade de retomar o contato, Victória diz que não. A última vez que se viram foi antes da morte da mãe. “Nunca tive vontade de vê-lo. Não o considero meu pai”. Ela diz que uma das tias paternas costumava ir às suas festas de aniversário quando era criança, até uns 12 anos, e que a encontrou no Facebook, ligou algumas vezes, mas que ela nunca quis essa aproximação. “A família da minha mãe nunca se opôs, mas eu não quero”.

Ela comenta que o tio, Heitor Ragazzi, 46, representa a figura paterna em sua vida. “Ele me buscava na escola, jantávamos juntos, saíamos para comprar roupas. Até hoje é assim, com menos assiduidade, mas a mesma relação”.

Já com a tia, Regiane Ragazzi, 55, por ser mais jovem, Victória diz que ela é mais presente. “Minha tia sempre esteve ao meu lado, mas se minha avó tinha dado a última palavra ela não se metia”, relembra.

A jovem, que estuda jornalismo, diz que todos os dias tenta demonstrar o quanto ama a sua avó compartilhando tudo o que ocorre em sua vida com ela. “Sou muio reservada, então, me abrir com ela, falar das minhas coisas é uma forma de dizer o quanto ela é importante para mim e o quanto eu a amo”.

Ao ser perguntada sobre o que falaria para avó em relação a toda a jornada que passaram, e ainda passam juntas, Victória diz que agradeceria pela coragem e pela força que ela teve até hoje, que a admira muito. “Não sei se serei tão forte ou tão incrível como ela sempre foi. Pediria desculpa se fiz alguma coisa para ela, porque eu não seria quem eu sou se ela não existisse na minha vida”.

Amor, disciplina e novas perspectivas
Lizia Giampá, 62, é uma avó que teve de assumir o papel de mãe no lugar de sua filha Renata, 40, que possui deficiência intelectual e engravidou de Luan quando tinha 23 anos.

Segundo Lizia, Renata foi acompanhar a avó, que estava visitando a família em São Paulo, mas que precisava retornar à Bahia, onde vivia. A jovem permaneceu 15 dias em férias longe de casa e, quando voltou, estava grávida. A família só foi descobrir a gravidez quando ela já estava quase no quarto mês, mas Renata não conseguiu explicar quem era o pai. “Ela tem um problema no hipotálamo, então, aos 23 anos sua mentalidade era de, aproximadamente, 14 ou 15”, comenta Lizia.

Ela conta que Renata passou a ter consciência de seu corpo, da gravidez, e que depois que Luan nasceu ela amamentava, mas que todo o resto passou a ser responsabilidade dela. “A única vez que a Renata tentou cuidar do Luan foi quando precisei sair e a deixei sozinha com ele, quando voltei o bebê estava todo assado”.

Lizia Giampá com seu neto Luan

Lizia Giampá com seu neto Luan

Lizia diz que sua vida mudou muito depois da chegada do neto. Ela, que já tinha quatro filhos adultos, costumava viajar sempre com o marido e agora, mesmo com Luan já adolescente, diz que não fica tranquila quando sai. “Preferiria ter um neto em outras circunstâncias. Que ele tivesse pai e mãe capazes de cuidar de sua educação e bem-estar, e que eu pudesse apenas mimá-lo”.

Mesmo com todas as dificuldades, ela enxerga esta experiência como um grande aprendizado de amor, disciplina e de novas perspectivas. “Um novo leque se abriu em minha vida com a chegada do Luan. Apesar de toda a situação, ele sempre foi muito bem-vindo, acolhido e amado”.

A avó acredita que o neto sinta-se chateado com o fato de a mãe ser especial e de ela não saber dizer quem é o seu pai. “Ele só me perguntou uma vez quem era o pai. Eu disse a ele que realmente não sabia, que se soubesse falaria. Acredito que tudo isso seja confuso para ele”.

Já Luan, que hoje está com 16 anos, diz que esta situação nunca o incomodou, que se sente presentado por ter duas mães. “Amo as duas. Desde criança quem cuida de mim é minha avó, mas enxergo a Renata como minha mãe. Independentemente de ela não conseguir cuidar de mim, tenho carinho de mãe por ela”.

Sobre o que mais gosta em sua avó, ele diz que gosta de praticamente tudo nela. “Sempre me dá bons conselhos para eu me tornar alguém importante. Só não gosto quando ela fica irritada”.

No que diz respeito aos limites impostos, Luan diz que a avó age como qualquer outra mãe. “Às vezes ela me proíbe de sair com os amigos e se eu faço algo que ela acho errado me coloca de castigo e tira o videogame, o celular, a TV”.

Ao falar do que sente pela avó, o adolescente diz que ela é o maior amor que tem em sua vida.

Hoje, aos 40 anos, Renata, que sempre estudou em escolas para pessoas com algum tipo de deficiência intelectual, faz parte de um programa que promove a inclusão de pessoas especiais no mercado de trabalho e está há quatro anos trabalhando em uma empresa.

Avó em dose dupla
Em seu aniversário de dois anos, Thiago Pellati, 23, perdeu sua mãe. Ela teve uma parada cardíaca aos 27 anos. O pai, que trabalhava como bombeiro militar, tinha horários alternados. Dessa forma, Thiago foi viver com a avó partena, Maria Magdalena.

Quando tinha, aproximadamente, cinco anos, o pai começou a namorar e sua parceira engravidou, eles se casaram e mudaram para o interior de São Paulo, levando Thiago junto para Nova Odessa. “No começo era tudo ótimo, ela me tratava muito bem, mas depois que eu entrei na escola, aos sete anos, tudo mudou. Ela passou a me bater muito, levava muitas surras. Não sei se eu era uma criança muito travessa, se aprontava demais ou se o fato de não fazer a lição de casa ou tirar notas ruins eram a causa. Realmente não me lembro”, comenta Thiago.

Durante um ano e meio Thiago aguentou os abusos da madrasta, pois tinha medo de contar para o pai por conta das ameaças sofridas. Quando vinha passar as férias em São Paulo, na casa da avó Maria, ela e uma tia percebendo que algo não estava bem faziam perguntas entre uma brincadeira e outra e descobriram que ele sofria abusos físicos. Ambas conversaram com o pai de Thiago e ficou acordado que o menino, que já estava com oito anos e meio, viria morar na casa da avó. “Eu passava a semana com minha avó paterna e, nos fins de semana, ia para a casa da minha avó materna”, conta.

Ao completar 11 anos e meio, o pai retornou a São Paulo, divorciado, e foi viver com ele na casa da avó. Aos 12 anos, Maria Magdalena faleceu. Logo depois, o pai casa-se novamente e muda-se para Leme (interior de SP) com a nova esposa e Thiago. “Foram dois relacionamentos extremos. A primeira madrasta foi o pior dos mundos, e a segunda, um paraíso, pois ela me tratava muito bem. Tive medo de perder o contato com o meu pai quando ele começou a namorar novamente. Mas com essa nova relação deixei de sentir o medo de antes”.

Thiago viveu com o pai e a nova madrasta dos 12 aos 18 anos, até que, em 2012, veio para São Paulo e um tio perguntou como estavam as coisas no interior, se ele estava trabalhando. Ele disse que não e o tio ofereceu um emprego. “Telefonei para o meu pai perguntando se podia ficar e ele concordou. Aí eu fui morar com minha avó materna, com quem vivo até hoje”.

Ele conta que as avós sempre representaram a figura materna em sua vida. “Minha avó por parte de pai sempre estava presente nos eventos da escola, apresentações, Dia das Mães. Devo o meu jeito íntegro de ser a ela, de não aceitar coisas erradas, não ser falso. Aprendi tudo com ela, graças à educação que ela me deu”.

No que se refere a avó materna, Nair Pellatti, 88, ele diz que não consegue tomar nenhuma decisão sem consultá-la e que seus conselhos são sempre bem-vindos. “Às vezes temos desentendimentos, mas tudo que faço é ela quem me direciona, sempre estou aprendendo com ela”.

A avó Nair conta que o neto teve muitos problemas na vida. “Mas quando ficou adulto achou que minha casa seria o seu ninho”.

Ela diz que ele é mais que um filho, que o amor de avó pelos netos é muito maior do que o amor pelos filhos. “Com o filho você está pensando se tem roupa para lavar, passar, comida pronta, você briga com os filhos por diversos motivos. Com o neto a gente esquece, não lembra de mais nada, o carinho dobra. Não deixo de amar os meus filhos de maneira nenhuma, mas faço pelos netos o que não fiz pelos filhos”.

Como quase todas as avós, Nair diz que Thiago sempre foi um bom menino, mesmo com as dificuldades. “Acredito que aqui ele encontrou o amor que não recebeu ao longo da sua vida. O amor da mãe foi bastante, mas ela o deixou muito novinho. O que ela não pôde fazer por ele eu procuro preencher”, finaliza Nair.

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