O blog entrevistou dois pais que fizeram questão de se ser presentes na vida dos filhos após a separação; eles falam sobre rotina com as crianças e relacionamentos; série de TV também lança olhar sobre esses homens

Adriana Del Ré

Como explicar o que é ser mãe solteira? Padecer no paraíso em dobro? Não me parece justo fazer uma comparação quantitativa entre mães casadas ou mães solteiras. Afinal, a maternidade é um desafio diário a todas as mulheres, independentemente de seu estado civil – e, em muitos momentos, pode ser até uma fase solitária, como nos primeiros meses do bebê. Mas ainda hoje penso como deve ser mais leve essa jornada para quem tem alguém ao lado no dia a dia. Claro que nós, mães solteiras, podemos contar com a ajuda preciosa dos familiares, dos amigos, das babás (quando é possível bancar uma)… E até mesmo daquela vizinha mais próxima ou do porteiro quando a perua escolar chega com seu filho e você ainda está presa no trabalho. No entanto, eles não podem ficar na retaguarda em tempo integral.

Socialmente, essa condição às vezes traz percalços. Na antiga escolinha da minha filha, para mim, no começo, era difícil falar, por exemplo, para os pais dos amiguinhos dela que eu era sozinha. E nem era por culpa deles. Ninguém nunca me julgou. Mas eu ficava constrangida, talvez porque, ainda na minha geração, desde a infância, o modelo de família bem-visto pela sociedade era o do pai, mãe e filhos. Esse eco da família ideal inconscientemente me acompanhou na vida adulta. Minha parceira de blog, Claudia Pereira, mãe solteira dos gêmeos Vinicius e Guilherme, de 15 anos, diz que nunca sentiu vergonha de dizer que é mãe solteira, mas percebia que as pessoas ficavam penalizadas, o que a irritava. No quesito relacionamento, também não é fácil. É como se soasse um alerta vermelho no homem que você está conhecendo quando você, querendo ser transparente desde o início, diz a frase ‘eu tenho filho’. Chega até a ser tragicômico.

Refletindo sobre essas vivências como mãe solteira, fiquei imaginando como é a vida dos pais solteiros. Eles passam pelos mesmos percalços? Também são alvos da cultura machista? Ou para eles, tudo é mais fácil. Segundo a socióloga Bárbara Ribeiro, que tem estudos com ênfase em violência de gênero, família, entre outros temas, pelo fato de ser baseada no patriarcalismo, a sociedade brasileira tende a olhar com menos preconceito para uma mulher solteira com filhos do que para um homem na mesma condição. Ela acredita que, dentro dessa sociedade, um homem sozinho cuidando do filho é visto como “um coitado” enquanto uma mulher, não, porque ela mesma que teria de cuidar do filho, é o papel dela. “É a questão da divisão sexual dos papéis na família: a mulher é aquela que cuida da casa, dos filhos, e o homem é aquele que sai para trabalhar, isso marcou a nossa cultura”, analisa ela. “Essa ideia da família nuclear começa no século 19. Era esperado que as mulheres tivessem filhos, ficassem em casa, fossem prendadas. É a chamada família burguesa.”

 

Aggeo Simões e a filha Ava. Foto Fabio Cançado

Aggeo Simões e a filha Ava. Foto: Fabio Cançado

Nessa busca por esses pais, foi bacana – e esclarecedor – conhecer as histórias do cartunista, locutor e cantor Aggeo Simões, de 48 anos, que mora em Belo Horizonte, e do professor de geografia Lizandro Crus Chagas, de 39, que vive no Rio, que se tornaram pais solteiros depois de se separarem de suas mulheres. Aggeo é pai de Ava, de 12 anos, e se divorciou da mãe da menina quando ela tinha 1 ano e meio. Sem precisar recorrer à Justiça, o ex-casal concordou com a guarda compartilhada, na qual o tempo de convivência dos filhos com pai e mãe é dividido de maneira equilibrada. “Eu não queria só vê-la de final de semana”, afirma. “No começo, eu tinha de ficar com ela só um pouquinho, porque ela sentia saudade da mãe. Sempre respeitei isso e sempre quis que fosse uma coisa boa para todo mundo. O foco era nela, mas a coisa tinha de funcionar para os três.”

Ele passou por aflições comuns de pais de primeira viagem, sobretudo que se veem na empreitada sozinhos, desde como limpar o bumbum do bebê até receio de acidentes domésticos. Conta ainda que nunca achou pesado esse momento de ter de se virar sozinho para cuidar da filha, não se sente constrangido por ser pai solteiro e que isso nunca o atrapalhou a engatar relacionamentos. Mas eles acabam não durando. “No começo, elas acham lindo, se sentem atraídas, seguras com um homem que cria o filho e, no final, já estão com ciúmes da minha filha”, diz. “E tem gente que tem preconceito. Já rolou de uma mulher falar: deve ter alguma coisa errada com você. Ela insinuou que eu era gay.”

Aggeo decidiu compartilhar suas experiências de pai solteiro num blog, o Manual do Pai Solteiro, e também no livro ‘Manual do Pai Solteiro’ (Grupo Editorial Record/BestSeller; 160 págs, R$ 22). “Após a separação, bateu aquela insegurança de estar sozinho com ela um tempo maior e comecei a escrever sobre isso, sobre essas minhas inseguranças, o que eu deveria fazer para o ambiente ser o mais seguro possível e agradável. Depois que relaxei, comecei a ver que isso é uma coisa muito natural, tranquila. Comecei a curtir. É tanta gente que tem medo da paternidade, tanto homem acha que não dá conta ou é coisa de mulher que pensei em começar a escrever.”

Lizandro Crus Chagas e o filho Thomaz

Lizandro Crus Chagas e o filho Thomaz

Também blogueiro e YouTuber, Lizandro também criou um blog para falar sobre sua rotina de pai solteiro, o soupaisolteiro.com.br, que deu origem a outros canais, YouTube, Snapchat, Instagram, Facebook e Twitter, que podem ser encontrados também pela busca ‘Sou Pai Solteiro’. Há cinco anos, ele se separou e não tinha muita noção de seus direitos como pai. Começou, então, a estudar o assunto. E recebeu a sugestão de um amigo para dividir o que aprendeu com outros pais em um blog. “O primeiro mês foi bem pessoal e, com o tempo, busquei novos temas.” Batalhou pela guarda compartilhada e, hoje, ele tem a guarda do filho Thomaz Luiz, de 6 anos. O filho mora com ele e passa dois dias com a mãe, tudo em comum acordo. “Não tive a intenção de tirar a maternidade dela. Até hoje a gente se trata com respeito e se acertou em prol do Thomaz.”

Para manter a rotina da casa com o filho, o professor teve de adaptar sua vida, e tomou medidas como não dar aulas muito longe da casa e só trabalhar à tarde quando Thomaz está com a mãe, algo que é comum para solteiros com filhos. Tudo passa a girar em torno da agenda do filho. “Não tenho empregada nem pais que possam me ajudar.” Desde que se separou, Lizandro conta que não teve um namoro fixo. Ele já teve um relacionamento tranquilo com uma mulher que compreendia sua dedicação ao filho. Mas também houve quem protestasse de ter de dividir o tempo com o garoto – na realidade, para Lizandro, a maior parte do tempo é direcionada para o filho.

“A mãe solteira é vista de maneira negativa, o homem não passa por isso, mas a gente passa por incredulidade social”, afirma. Ele já ouviu perguntas como: você faz tudo?, lava roupa?. “As pessoas não acreditam.” Para o professor, os bons pais pagam um preço por causa dos pais negligentes. “Muitos pais não querem saber do filho, o abandona, mas vejo também pais lutando na justiça, ouvindo da própria família que não é capaz”, avalia. “É importante a presença de mãe e pai na vida da criança. Se a pessoa não quiser, azar o dela.”

De acordo com Andréa Pachá, juíza do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro e escritora, autora dos livros ‘A vida não é justa’ e ‘Segredo de Justiça’, a guarda unilateral do pai é ainda muito mais rara do que a da mãe. “O tratamento de mães solteiras e pais solteiros vem mudando ao longo do tempo. Acho que foram muitas mudanças em pouco tempo, a gente tem 20 anos de uma transformação profunda nos direitos das famílias, e antigamente esses assuntos não eram nem discutidos: a guarda ficava com a mãe, o pai pagava pensão, o homem mandava, a mulher obedecia. Ninguém falava em alienação parental, em guarda compartilhada, tudo é muito recente, acho que a gente tem de construir isso devagar, mas está indo bem”, diz ela.

Jake, um dos participantes da série de TV 'Pai Solteiro Procura', com os filhos

Jake, um dos participantes da série de TV ‘Pai Solteiro Procura’, com os filhos

Os pais solteiros, assim como as mães solteiras, têm direito de reconstruir sua vida. Para abordar esse tema, a Discovery Home & Health estreia na próxima segunda-feira, 18, às 20h30, a série ‘Pai Solteiro Procura’, que acompanha cinco pais que se dedicam aos filhos em tempo integral e também tentam encontrar um novo amor. São sete episódios de uma hora cada, em que Mike, Jake, Jason, John e Paul procuram pretendentes em redes sociais. As escolhidas vão conhecê-los pessoalmente e passar um dia com eles e seus filhos. A expectativa é de formar uma família.