Casado e vivendo na Argentina, o também ator e escritor brasileiro trata de temas como diversidade e inclusão na nova atração do Disney Junior, ‘Nivis, Amigos de Outro Mundo’, que estreia neste sábado, 20

Um dos apresentadores queridos da Disney, Vinicius Campos esteve à frente do Parquinho Disney Junior, programa do Disney Junior para toda a América Latina, durante cinco anos. Também participou de outros programas da casa, como Playhouse e Casa do Disney Junior. Foi uma década diante das câmeras como apresentador de atrações infantis. Mas Vinicius sentiu que estava na hora de seguir um caminho diferente. Ator e escritor, ele já vinha passando por um processo de transformação na sua vida pessoal também nos últimos tempos.

Em 2017, Vinicius foi o primeiro apresentador da Disney Junior a assumir publicamente que é gay. E continua a ser o único até hoje. Para ele, sua vida pautada em temas como diversidade e inclusão social precisava ter extensão em seu trabalho na TV. Falou, então, para a empresa que queria fazer um projeto relacionado a esses universos. Vinicius ficou no Parquinho Disney até 2018, quando passou a se dedicar à série Nivis, Amigos de Outro Mundo, nova produção original do Disney Junior, que estreia no canal neste sábado, 20, às 18h.

O ator e apresentador Vinicius Campos. Foto: Acervo pessoal 

Eu vinha fazendo programa infantil há muito tempo como apresentador. Você tem que ter uma energia muito jovial, adolescente. Comecei aos 27 anos, mas eu não estava mais com 27. Eu já estava com vontade de fazer outras coisas”, conta Vinicius, hoje com 39 anos, em entrevista ao blog. “Eu já estava escrevendo meus livros, já tinha publicado alguns. O assunto da diversidade sempre esteve presente nos meus livros e no meu olhar sobre o mundo, porque fui uma criança mais sensível, mais relacionado ao universo feminino e, por causa disso, sofri muito bullying, dentro e fora de casa. Não sei quando foi a primeira vez que escutei que eu era bicha, mas foi muito cedo, porque eu gostava de brincar com as meninas, pular corda, não gostava de jogar futebol.”

O ator lembra que, quando tinha 8, 9 anos, uma menina no colégio chegou nele e falou: ‘Chega, ninguém vai te zoar mais. Vou te ensinar a jogar futebol e eles vão parar de zoar com você’. E Vinicius fez aula de futebol para ser aceito. “Acabei desenvolvendo minha sexualidade mais tarde do que a maioria, isso acontece com o gay. Você vai se escondendo e se protegendo. Tudo isso, óbvio, aparece no meu trabalho. Então, cheguei na Disney e falei que queria fazer isso, queria falar desse assunto, sair do Parquinho e fazer outra coisa.”

Assim, Nivis torna-se uma realização, uma conquista para ele. Combinando personagens e cenários reais com animação 3D, a série trata de assuntos que são caros a Vinicius ao mostrar a aproximação de duas famílias que literalmente são de mundos diferentes. Uma família do planeta Nivilux, formada pelo garoto Blink, seus pais Nika e Baldo e seu pet Nox, desembarca na Terra por acidente quando sua nave se choca contra a janela da casa de Amadeo (Gustavo Masó), diretor de orquestra que mora com seu filho Felipe (Vinicius) e sua neta Isabella (Lourdes Errante). A partir de então, as duas famílias passam a conviver e a compartilhar seu cotidiano.

 

O elenco de ‘Nivis’. Foto: Disney Junior

Na história, sou um escritor que escreve sobre espaço, extraterrestres, vidas em outros planetas, para crianças, e um dia estou em casa, escuto um barulho e uma nave espacial bate no meu quarto, quebra a parede, e de lá sai uma família de seres de outro planeta”, conta Vinicius, que está à frente de um elenco latino-americano. “A gente faz uma série de humor com todo o cuidado para que o elenco fosse extremamente plural e representativo, para que muitas pessoas possam se identificar, e que depois a maneira como a história flui vai respeitando questões de diversidade, inclusive nas piadas e no humor que ela propõe.”

E por que mostrar essas diferenças com seres de outro planeta? “Toda família é única, é diferente. Existem vários tipos de família, e nenhuma família é tão diferente para as crianças, porque cada criança tem uma família. Se a gente falasse que a família é diferente porque tem duas mães, para algumas não é diferente, porque elas têm duas mães”, ele responde. “O único jeito de a gente ter uma família realmente diferente é trazendo alguém de outro planeta, para que a pessoa entendesse a diferença: sim, são diferentes, a família terráquea é humana, os outros são animação, ou seja, tem diferença na textura, no tamanho, e é muito infantil, lúdico, e também coloca a criança para entender o respeito, as diferenças de uma maneira muito clara e divertida.”

Voltada para um público de 3 a 7 anos e seus pais, a série começou a ser pensada de uma forma muito diferente da história que vai ao ar a partir deste sábado, 20, Vinicius conta. “Foram 4 anos de desenvolvimento do roteiro até a gente chegar na gravação, que foi o ano passado. Nesse meio tempo, virei pai também, e foi nesse processo que o Felipe (seu personagem) e eu fomos nos tornando muito parecidos. Na hora de falar com minha filha na cena, eu naturalmente sei, é orgânico, na forma como chamo meus filhos para comer. Essa coisa de dar bronca sem dar bronca, de ser mais duro, mas com ternura. Se eu não fosse pai, eu teria de construir isso como ator, mas na série aparece naturalmente, e vejo o pai ali.”

Vinicius, Eduardos e os filhos. Foto: Acervo pessoal

Vivendo há 12 anos em Buenos Aires, na Argentina, Vinicius é casado com Eduardo, e, juntos, adotaram três filhos no país, que são irmãos biológicos. Foi uma adoção tardia. Hoje, Milagros tem 16 anos, Alfredo, 15 e Pablo, 13 anos. O ator conta que ele sempre quis ser pai, mas o marido não tinha o mesmo sonho. Certo dia, no entanto, um amigo comentou sobre um programa de voluntariado, em que era possível se tornar padrinho de crianças que estavam no orfanato, para que elas recebessem visitas, tivessem quem ligasse para elas no dia do aniversário ou as levassem para passear. O casal foi. Passou por um longo processo de entrevista e virou padrinho de três irmãos, que, na época, tinham 8, 7 e 5 anos.

Com o tempo, estabeleceu-se um vínculo forte entre eles. “A gente quis tentar (adotar) os três, só que a lei não permite você adotar seus afilhados, porque tem gente que vai lá para furar a fila da adoção, que é longa. Então, não pensamos que íamos adotá-los. Só que o amor começou a crescer, eles começaram a chegar em casa na sexta à noite e ficar até domingo. E o Edu foi se apegando”, lembra. “Quando eles foram colocados para adoção, o juiz começou a procurar família, mas não encontrava em Buenos Aires quem quisesse três nessa idade. E eles queriam que os três fossem adotados juntos. Ficamos nesse processo vivendo de final de semana e férias durante quatro anos, e, quando tinham 9, 11 e 12, eles vieram morar com a gente. São 8 anos de convivência.”

Foi um processo acompanhado de perto também pela Disney. “Eles acompanharam todo o processo de adoção, festejaram comigo”. O apresentador ainda analisa: “se a gente ver historicamente, acho que a Disney, na maioria das vezes, se manifestou de forma progressista em relação aos temas do mundo. Mas, ao mesmo tempo, Disney é família. Walt Disney sempre se preocupou com família, tinha filha adotada, sempre planejou o humor e o entretenimento para os familiares, não só para as crianças. Era para todos”. Segundo ele, internamente na Disney nunca houve problemas, tem vários funcionários gays, atores gays, apresentadores gays, “e não teve nunca, da parte deles, restrição para que eu falasse ou não da minha vida”, finaliza. 

Veja vídeo sobre a série:

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