Diretor do Festival MixBrasil e coordenador do Centro Cultural da Diversidade, o jornalista e ativista fala sobre o impacto da pandemia na vida da comunidade LGBTQIA+ e a importância do Dia da Visibilidade Trans, comemorado nesta sexta, 29 

 

Há três décadas, o jornalista, escritor e ativista André Fischer é uma figura importante na cena LGBTQIA+, sobretudo, paulistana. Idealizador e diretor do Festival MixBrasil, Fischer teve a continuidade de seu trabalho como coordenador do Centro Cultural da Diversidade (CCD) confirmada agora em janeiro por Alê Youssef, que voltou à Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo.

Aliás, foi Youssef quem o convidou para implementar o CCD em 2019, conta Fischer, em entrevista, por e-mail, ao blog. “Tivemos que começar reativando um lindo espaço em pleno Itaim Bibi que estava abandonado. Recuperado, tivemos que criar um rumo para a programação e uma trajetória para sua efetiva implementação na agenda da cidade e da comunidade LGBTQIA+”, lembra ele.

André Fischer, coordenador do Centro Cultural da Diversidade. Foto: Arquivo pessoal

Foi o primeiro espaço do gênero no País voltado com exclusividade à promoção e à difusão da cultura LGBTQIA+. “Temos uma intensa programação de espetáculos, shows, seminários e exposições – presenciais antes da pandemia e, nas janelas, quando os protocolos sanitários permitem e/ou com transmissões online em nossas redes sociais”, diz. “Iniciamos este ano também um programa superbacana de residências artísticas, que está incentivando novos grupos e talentos LGBTQIA+ na realização de espetáculos que investigam novos temas e linguagens.”

Nesta sexta-feira, 29, é comemorado o Dia da Visibilidade Trans, e o CCD vai promover programação especial: show de Jup do Bairro, parceira musical de Linn da Quebrada, nesta sexta, 29, às 22h; e apresentações dos espetáculos Não Ela, no sábado, 30, às 20h, e Mini-bius, bils, bios, no domingo, 31, às 19h, projetos de residência que abordam temas ligados à transexualidade. A transmissão dos eventos pode acompanhada no Instagram @ccdiversidade

Ao blog, Fischer fala sobre o impacto da pandemia na vida da comunidade LGBTQIA+, a importância do Dia da Visibilidade Trans e como se criar uma sociedade mais inclusiva.

Esta sexta, 29, é o Dia da Visibilidade Trans. Sendo o Brasil o país que mais mata pessoas LGBTQIA+ no mundo, qual a importância da criação e celebração dessa data? Como usá-la para sensibilizar um público além do LGBTQIA+?
Ainda que continue sendo umas das comunidades que mais sofrem preconceito e violência no País, pessoas trans e travestis vêm conquistando imensa visibilidade na sociedade, no debate político e especialmente no cenário cultural. Música, teatro e televisão têm sido as áreas onde artistas trans têm se destacado. A crescente visibilidade trans gera o debate e cria empatia, indicando caminho de ações de inclusão.

E como conseguir avanços – e não retrocessos – nas causas LGBTQIA+ diante do conservadorismo do Brasil, reforçado pelo atual governo federal?
O único caminho é a articulação política da comunidade LGBTQIA+.

Você é autor do livro ‘Manual Prático de Linguagem Inclusiva’. Como é possível nos tornarmos uma sociedade mais inclusiva? Quais são os principais movimentos e ações para isso?
O objetivo de quem usa a linguagem inclusiva é falar e escrever tomando cuidado ao escolher palavras que demonstrem respeito a todas as pessoas, sem privilegiar umas em detrimento de outras. Sem nos darmos conta, reiteramos pelo uso da linguagem o modo pelo qual nossa sociedade perpetua a opressão contra mulheres, imigrantes, indígenas, pessoas negras, idosas, LGBTQIA+ e com deficiência. Através da linguagem criamos consciência e podemos modificar padrões de pensamento. Ao mudar a forma de escrever e falar podemos começar a mudar também o nosso entendimento e das pessoas com quem nos comunicamos.

Como vê o impacto da pandemia não só no ativismo e no avanço das conquistas dos LGBTQIA+, como também também no cancelamento de eventos que dão importante visibilidade à causa, como a Parada do Orgulho LGBT?
Na verdade, a comunidade LGBT, bem como outras minorias, vem sofrendo um impacto gigantesco desde a ascensão ao poder de um grupo de pessoas que pregam abertamente o desrespeito a direitos humanos e da cultura. A pandemia apenas acirrou esse movimento.

Aliás, é possível realizar a Parada neste ano?
A Parada do Orgulho LGBT, da qual faço parte do conselho, acontecerá de forma virtual em 6 de junho – bem como praticamente todos os eventos públicos pelo menos até o final do primeiro semestre.

A população LGBTQIA+ ficou mais vulnerável na pandemia? Se sim, por quais motivos?
A população LGBTQIA+, bem como mulheres, pessoas negras, indígenas, pessoas com deficiência e para ser realista praticamente toda a população brasileira, todos estamos mais vulneráveis por estarmos vivendo sob uma gestão criminosa da pandemia em nível federal.

Olhando em retrospecto, qual a importância da criação do Festival MixBrasil de Cultura da Diversidade e como ele inspirou outras ações, outros eventos?
O Festival MixBrasil de Cultura da Diversidade acontece ininterruptamente desde 1993, crescendo a cada edição e é hoje um dos maiores eventos do gênero no mundo. Tem sido uma vitrine fundamental para a produção cultural LGBT, uma espécie de radar. Nesses tempos sombrios, funciona de uma certa maneira como porto seguro, uma referência para a comunidade. Continuo diretor do Festival, bastante envolvido na direção artística, na curadoria de filmes nacionais e teatro.