A 45ª Mostra Internacional de Cinema apresenta ampla amostragem de projetos que têm ênfase em seus figurinos

 

Um dos principais motivos de procura pelo curso de Moda na FAAP é a existência da disciplina de Figurino, ministrada pela professora Cristiane Rose Candido, diretora do departamento no setor de Teledramaturgia no SBT. Nas aulas, são apresentados aos alunos os diferentes tipos de projeto dos quais o profissional da área pode participar. Televisão, cinema, teatro, dança, ópera e até mesmo circo: todas contemplam a criação de figurinos.

Na 45ª Mostra de Cinema de São Paulo, com curadoria da diretora do festival Renata de Almeida, realizada de 21 de outubro a 4 de novembro de 2021, que contou com a cobertura do LabJor FAAP – Laboratório de Jornalismo da instituição, coordenado pela professora Luciana Garbin, estiveram presentes diferentes tipos de espetáculo nas telas, haja visto que a pandemia impediu apresentações com público. Este foi o caso de obras como Antígona 422 AC, de Maurício Farias (Brasil, 2021), Ato, de Bárbara Paz (Brasil, 2021), e Poropopó, de Luis Igreja (Brasil, 2021).

Em conjunto com filmes que tiveram uma forte ênfase no figurino, como A Voz Humana, de Pedro Almodóvar (Espanha, 2021), Noite Passada em Soho, de Edgar Wright (Reino Unido, 2021), After Blue (Paraíso Imundo), de Bertrand Mandico (França, 2021), El Planeta, de Amália Ulman (EUA, Espanha, 2021) e Annette, de Leos Carax (França, Bélgica, Alemanha, EUA, Japão, México e Suíça, 2021), um arsenal de criações vestíveis, com diferentes estéticas e propósitos, puderam ser vistas no festival deste ano.

A fim de exemplificar a importância do figurino e sua relação com a moda e as artes, serão apresentadas obras cinematográficas desta edição da mostra, tanto internacionais como nacionais.

Figurinos na Perspectiva Internacional

Esta reportagem, que será dividida em duas partes, terá sua primeira seção dedicada a filmes da Perspectiva Internacional, segmento da Mostra voltado às produções estrangeiras.

Já na segunda metade da matéria, serão explorados dois filmes da Mostra Brasil, que foram produzidos em território nacional.

A Voz Humana

O curta-metragem de Pedro Almodóvar, exibido na noite de abertura da 45.ª Mostra no Espaço Itaú de Cinema, na Rua Augusta, contou com um depoimento explicativo do diretor, em vídeo, antes da exibição do filme. Baseado na peça de mesmo título do dramaturgo Jean Cocteau, o filme consiste em um monólogo, interpretado por Tilda Swinton, complementado por fortes escolhas quanto à direção de arte e, mais enfaticamente, em relação a seu figurino.

Grande parte das peças presentes no curta são da autoria de Demna Gvasalia, diretor criativo da casa Balenciaga, a qual, mais recentemente, tem feito manchetes com as peças de vanguarda utilizadas por Kim Kardashian e Kanye West, pretas, que cobrem os seus rostos.

Tilda Swinton em A Voz Humana, de Pedro Almodóvar (Espanha, 2021): vestido com crinolina (à esq.) e conjunto de malha canelada (à dir.) da grife Balenciaga. Fotos: Divulgação

A Voz Humana tem início em um estúdio cinematográfico com Tilda Swinton vestida em um look, também presente no pôster de divulgação do filme, da coleção de Primavera/Verão 2020 da maison. Este consiste em um vestido de baile na cor vermelho sangue, justo no busto e com crinolina, inspirado nos primeiros designs de Cristóbal Balenciaga, em que fazia referência às pinturas espanholas. Logo é substituído por um conjunto preto, também da marca, e suas famosas botas de dedo, descritas pela Vogue como o “status do dedão do pé”, em parceria com a empresa de calçados Vibram.

À esq., Tilda Swinton veste conjunto Balenciaga azul turquesa, bolsa Chanel e óculos Tom Ford; à dir., coleção Resort 2020 da maison espanhola. Fotos: Reprodução/ Paper Magazine

Na segunda cena do filme, e única realizada em ambiente externo, é possível ver a atriz novamente de Balenciaga, desta vez, de blazer e calça na cor azul turquesa, da coleção Resort 2021. O look é complementado com óculos de sol Tom Ford e bolsa de ombro Chanel, marca que aparece também através de maleta e perfume no decorrer do filme.

Novamente no estúdio, no entanto, agora em cenografia montada de seu apartamento, a atriz veste o conjunto de cashmere da maison francesa- Ribbed Turtleneck Sweater – na cor vermelha. Pouco depois, é substituído por uma camisola do alfaiate italiano Angelo Malvuccio, peça utilizada na maior parte do curta-metragem.

Ao final, na cena mais dramática e de conclusão do filme, Swinton veste o look completo de passarela da coleção de Primavera 2020 do estilista belga Dries Van Noten, que apresenta diversas sobreposições e um mix de estamparia.

Bastidores de Tilda Swinton, com look do figurino do curta-metragem, e Pedro Almodóvar, diretor do filme A Voz Humana (Espanha, 2021). Ao lado, foto do desfile da Primavera 2020 de Dries Van Noten. Arte: Barbara Marques

Além do figurino, a obra também faz referência ao universo da moda por meio de muitos objetos de cena, como o DVD do filme A Trama Fantasma, de Paul Thomas Anderson, um frasco do perfume Chanel Nº 5, maletas Loewe e revistas Vogue.

O diretor Pedro Almodóvar, conhecido pela dramaticidade e maestria estética de seus filmes, como nos longas A Pele que Habito (Espanha, 2011), Abraços Partidos (Espanha, 2009) e Julieta (Espanha, 2016), também já apresentou peças de grandes designers e marcas, como Jean Paul Gaultier, Chanel, Dior e Prada, respectivamente.

Noite Passada em Soho

O filme Noite Passada em Soho, de Edgar Wright (Reino Unido, 2021) é a obra exibida na Mostra que mais faz referência ao universo da moda. O longa-metragem acompanha a história de Eloise, também chamada de Ellie, uma jovem do interior da Inglaterra, cujo sonho é tornar-se uma grande estilista. Criada pela avó após a morte prematura de sua mãe, a garota é apaixonada pelos anos 60 – em seu quarto podem ser vistos pôsteres de filmes como Bonequinha de Luxo, de Blake Edwards (EUA, 1961) e de ícones culturais britânicos, como a modelo Twiggy, além de discos de vinil de bandas como The Kinks.

A primeira cena do filme já insere o espectador no universo da personagem, uma vez que Eloise veste uma peça de sua própria autoria, que consiste em um vestido inspirado por páginas de revista. Além disso, Ellie é logo apresentada com uma carta de aceitação da UAL, Universidade das Artes de Londres, onde pretende cursar Moda.

Inicialmente, a personagem veste roupas de sua própria criação, que podem ser comparadas a looks bastante humildes da Gucci, apresentando sobreposições, mix de estampas e referências aos anos 60. Após a ida da personagem à cidade grande, no entanto, seu estilo sofre grandes mudanças.

A trama do filme apresenta uma viagem no tempo dos dias atuais à Swinging London – momento de surgimento de pluralidade cultural na cidade de Londres em meados dos anos 60 – onde Ellie vive através das experiências de Sandie, uma glamurosa aspirante à cantora que, visualmente, é inspirada em celebridades da época, como Brigitte Bardot e Cilla Black. O guarda-roupa da personagem é composto por peças como jaqueta de vinil branca, vestido em silhueta em A na cor coral, botas brancas de Andrés Courrèges, vestidos com estampas Pucci e grandes laços.

Anya Taylor-Joy em figurino assinado por Odile Dicks-Mireaux. Vestido em A, na cor coral com gola de pedraria, em A Noite Passada em Soho, de Edgar Wright. Foto: Divulgação

Além disso, no decorrer da narrativa, também são mencionadas importantes referências do design e da moda, como a loja Biba e a marca Lanvin. O filme termina com a exibição de um desfile, resultado do trabalho de conclusão do primeiro semestre da faculdade. No evento, são apresentadas peças criadas por Eloise, que, assim como o figurino e a trilha sonora do longa, são inspiradas nos anos 60.

Thomasin McKenzie e Anya Taylor-Joy interpretam Eloise e Sandie, em A Noite Passada em Soho, de Edgar Wright. Foto: Divulgação

Annette

Annette, de Leos Carax, é um dos filmes mais antecipados pelo público mundial no ano de 2021. Com grandes atores como Adam Driver e Marion Cotillard, a trama desenvolve-se em torno do casal Henry e Anne. Ele, um comediante, e ela, uma cantora de ópera, que tem uma filha, Annette, que desde muito jovem apresenta o dom de cantar de forma angelical.

Assim como o filme de Carax de 2012, Holy Motors (França, Alemanha e Bélgica), em que a direção de arte explora os tons de verde, rosa, e amarelo flúor, há algumas cores que são recorrentes, tanto nos objetos de cena, quanto no figurino do longa-metragem Annette. No caso da obra exibida na 45ª Mostra, a qual consiste em um musical moderno com trilha assinada pela banda Sparks, os personagens têm personalidades que muito dialogam com os tons escolhidos para suas roupas.

As cores verdes, majoritariamente, e tons terrosos são atribuídas ao protagonista Henry, um ganancioso e ambicioso comediante, que em suas apresentações de stand-up veste um roupão verde musgo e pantufas marrom, enquanto em seu casamento complementa seu terno com uma touca verde folha, cor também presente nas cortinas de seus shows. Anne, por sua vez, veste os tons de amarelo claro, presente em peças de roupa e até mesmo em sua toalha de banho; vermelho sangue, em vestido utilizado por ela em uma passagem tensa do filme em seu carro; e branco, no figurino da ópera interpretada pela personagem. Enquanto as tonalidades claras podem fazer referência ao caráter angelical da mulher, que é amada por todos, o vermelho representa a tragédia nas obras líricas, cantadas por Anne, e da própria narrativa do filme.

Adam Driver e Marion Cotillard em Annette, de Leos Carax. Foto: Divulgação

Além do figurino, a direção de arte é bastante representativa e dramática, algumas vezes remetendo ao universo teatral, como é o caso de uma cena no barco do casal, presente também no pôster de divulgação do longa. Outro exemplo é a própria personagem Annette, representada através de um boneco de marionete ao invés de uma criança real.

Ailey

O longa documental Ailey, de Jamila Wignot (EUA, 2021) acompanha a história do cultuado dançarino e coreógrafo norte-americano Alvin Ailey, por meio de gravações de sua  infância, adolescência e vida adulta, de seus ballets, em apresentações diversas ao longo dos anos, de depoimentos de seus amigos, parceiros de trabalho e alunos, além da documentação dos ensaios dos bailarinos do Teatro Alvin Ailey, que se preparam para o espetáculo comemorativo de 60 anos da instituição. O filme expõe a importância cultural do coreógrafo que, em 2008, foi nomeado “Vital Embaixador Cultural Americano para o Mundo” pelo Congresso dos Estados Unidos.

Os ballets Blues Suite (Grupo de Blues), Revelations (Revelações), Masekela Langage (Língua Masekela), The River (O Rio), Memoria (Memória) e Phases (Fases), todos de autoria de Ailey, fazem parte da narrativa do documentário e têm essenciais referências nas artes, por consistirem em obras que retratam a cultura, religião e história dos afro-americanos, além de questionar eventos como o apartheid e a violência racial, existente até hoje em países como os Estados Unidos e o Brasil.

Imagem do ballet Revelations, de Alvin Ailey Foto: Reprodução/

Nas apresentações de Revelations (Revelações), coreografia criada em 1960, quando Ailey tinha apenas 29 anos, spirituals — músicas religiosas associadas aos negros do sul dos Estados Unidos —, sermões gospel combinados a ritmos do blues e roupas típicas das celebrações cristãs negras norte-americanas, são utilizadas para homenagear sua herança e experiências de sua infância. De acordo com o próprio criador, em depoimento para o Ailey Pressroom: “As roupas e o set começam nas cores marrom, tons terrosos, para sair da terra, e para entrar na terra. A segunda parte é algo que estava muito próximo de mim – o batismal, o rito de purificação. Suas cores eram branco e azul pastel. E então temos a seção em torno da igreja góspel, o fanatismo e toda a felicidade religiosa. As cores seriam terrosas, amarelas e pretas.”

 

Por Barbara Marques (aluna do 6º semestre do Curso de Moda FAAP), com a colaboração das professoras Maíra Zimmermann e Monayna Pinheiro.