Mestre em Engenharia e publicitário de formação, Marco Antônio Andreoni é professor de design têxtil e de estamparia da FAAP, com mais de 20 anos no mercado de moda. Começou desenhando estamparia aos 14 anos, passou pelo setor de lingerie, criou uma marca de camisetas, trabalhou com bordados, beneficiamento, até entrar na área de computação gráfica, com foco no setor têxtil.

Andreoni: “O modelo de produção em escala é perverso com a natureza”

Andreoni é defensor do “fazer à mão” e de mudar os processos utilizados pelo mercado da moda, seja na forma de criar, de fazer ou de consumir. Não se intitula eco-friendly, mas cobra atitudes mais responsáveis da indústria e das pessoas. “Esta ideia de menor impacto não é uma ideia boba, é uma ideia das relações que você tem com o meio, com as pessoas e com o futuro”, diz.

 

Confira a entrevista do professor para o Blog FAAP Moda.

 

Você incentiva os alunos a “fazer à mão”. Por quê?

Eu aposto no fazer manual. As gerações que estão chegando hoje na faculdade são gerações digitais, então a experimentação física é um pouco distante e, no ensino de moda, o aluno precisa tocar o tecido, sentir a textura, desenvolver os sentidos para perceber o material. Não é possível desenvolver um design adequado sem ter esse contato. Senão, o aluno vai ficar muito distante entre o projeto e o objeto realizado.

 

Eu costumo propor em sala de aula que o aluno faça experiências, que crie o seu modo de fazer. Só após a experimentação desenvolvemos os conceitos. O aluno pode personalizar a sua peça, ou seja, colocar a mão em algo para reconstruir e modificá-lo. Quanto mais se modifica, mais se torna seu e esta forma é muito mais enriquecedora no desenvolvimento do conhecimento.

 

“Fazer à mão” é uma tendência?

Acredito que não seja uma tendência e sim uma postura que vem ficando aparente pela necessidade de ser autor ou de adquirir algo que tem uma história, um DNA, uma energia mais própria em comparação a um produto industrializado. Fazer empresta sempre a força de quem faz para aquilo que é feito e que nos dias de hoje se contrapõe às coisas prontas. O modelo de produção em escala hoje é perverso com a natureza. Não existem recursos suficientes para dar conta de uma indústria que promove um consumo exacerbado. A moda tem no seu produto uma obsolescência programada, com menor espaço de tempo de substituição em comparação às outras áreas produtivas. O mundo mudou, as reservas naturais não são suficientes para todos os habitantes e não estão se renovando. Mas a indústria continua no mesmo processo. Isso tem de ser revisto. “Fazer à mão” é uma atitude de baixo impacto.

 

Mas de que forma a moda pode ser mais sustentável?

Moda é atitude e comportamento e não apenas uma roupa. De todas as cadeias produtivas, a do vestuário é a de maior velocidade e modificação. Há mudanças a cada 15 dias ou menos que isso. É um produto que muda em tudo: no tipo de tecido, na costura, no decote, no acabamento, na cor. A moda pode ser perversa, mas também pode espelhar outras formas de pensar o mundo e testar soluções mais imediatas. As mudanças de atitude de consumo consciente obrigam o setor de vestuário a se modificar para atender necessidades de sustentabilidade. Uma dessas possibilidades é a customização, modificando algo existente e acrescentando algo pessoal

O tingimento têxtil, por exemplo, é uma das coisas mais antigas do mundo. Mas tanto o natural quanto o industrial causam impactos na natureza se não forem feitos direito. A chave de tudo é o equilíbrio. Os tingimentos gastam muita água, utilizam muita química. Mas, para onde vai essa água? Vai haver um tratamento dos efluentes adequado? Um dos primeiros tingimentos naturais que se tem na história causou um enorme impacto. A cor púrpura, usada nas roupas dos imperadores romanos, era extraída de um molusco. Esse molusco precisava estar vivo para se extrair uma glândula, que era utilizada no processo de tingimento. Todas as conchas desapareceram da natureza e mesmo assim o tingimento é natural. Então, o que eu quero dizer é que a quantidade que você processa das coisas precisa de algum tipo de equilíbrio. É preciso ter reposição na natureza. Esta ideia de menor impacto não é uma ideia boba, é uma ideia das relações que você tem com o meio, com as pessoas e com o futuro. E pode ser praticada mudando sua atitude.

 

E os tecidos naturais? São sustentáveis?

Eu sou favorável a todos os tecidos naturais. Há questionamentos sobre a cultura do algodão natural que também consome água. Sim, é verdade, mas no modelo de plantio intensivo que a agroindústria tem de escala produtiva, sem medir impactos, utilizando uma gama de produtos químicos, como os pesticidas, os desfolhantes, e consumindo uma enorme quantidade de água. De outra forma, há desafios da cultura de algodão no modelo de permacultura  –  que são sistemas de planejamento e criação de ambientes sustentáveis baseados na interação do homem com a natureza. Em São Pedro do Atacama, que é uma cidade no deserto no Chile, existe um modelo de gestão da água que faz com que o homem possa viver no deserto.

Estamos no século XXI e pouco foi feito. Vivemos no modelo do século XX. É preciso ter outras formas de pensar, planejar e agir. O modelo de negócio produzido na guerra e no pós-guerra é que se extinguiu e não dá conta de um planeta com 8 bilhões de habitantes. Estamos vivendo da inércia de seu movimento.

Precisamos incorporar atitudes e comportamentos de baixo impacto no nosso cotidiano e a moda permite isso. Por isso, digo e repito: é preciso ter equilíbrio em todas as ações.

Camiseta feita pelo professor durante viagem à Amazônia. Andreoni utilizou técnicas de impressão botânica com folhas e mordentes naturais.