Segunda reportagem desenvolvida pela estudante Bárbara Marques destaca os filmes da Mostra Brasil, presentes na 45ª Mostra Internacional de Cinema

Assim como nas obras apresentadas na primeira parte dessa reportagem, que têm como objetivo apontar a importância da relação entre moda, cinema e artes nos filmes de produção nacional da 45ª Mostra Internacional de Cinema, o figurino também é elemento chave para ambos desenvolvimentos: estético e narrativo.

No caso das obras escolhidas para a matéria, Antígona 422 AC, de Maurício Farias (Brasil, 2021) e Poropopó, de Luis Igreja (Brasil, 2021), estas também dialogam com outros dois tipos de espetáculo: o teatro e o circo.

Como exposto na reportagem anterior, muitos daqueles interessados no curso de Moda optam pelo ingresso na FAAP por conta da matriz curricular que contém a disciplina de figurino. No decorrer das aulas, a professora responsável pela matéria, Cristiane Rose, procura apresentar aos alunos diferentes tipos de projetos que podem contar com as criações de um figurinista. Deste modo, em um dos trabalhos, propõe que os alunos, com base em um mesmo roteiro, pensem no desenvolvimento de um guarda-roupa que atenda a diferentes tipos de performance, sendo elas, a televisão, o cinema, o circo, a dança contemporânea, o ballet e o teatro musical.

Assim, filmes como os apresentados a seguir, podem servir não somente como ilustração da pluralidade do trabalho de um figurinista, como objetos de inspiração para futuros criadores da indústria.

Antígona 422 AC

O filme Antígona 422 AC, de Maurício Farias (Brasil, 2021), é o perfeito exemplo de como o figurino é um elemento chave para a criação e definição de características dos personagens de uma obra.

Adaptação da peça de Sófocles, em conjunto com outras histórias gregas, como As Bacantes e Édipo Rei, o longa-metragem consiste em um espetáculo, antes apresentado ao vivo em teatros, em que todos os personagens presentes são interpretados por Andréa Beltrão. Com poucos elementos de cena e desenvolvido entre um palco vazio e uma sala com pôsteres feitos à mão pela atriz, que contém explicações da trama e a árvore genealógica dos indivíduos envolvidos, a distinção entre personagens é marcada essencialmente pelo figurino – enquanto Édipo, por exemplo, veste um cachecol na cor melancia, Jocasta, sua mãe, calça um sapato de salto vermelho.

Andréa Beltrão como Édipo em Antígona 422 AC, de Maurício Farias (Brasil, 2021). Foto: Divulgação

Além da utilização das roupas para a definição dos personagens, estas também são artifício para a modernização da peça, escrita por Sófocles por volta de 422 AC. Composto de jaquetas diversas, camisetas de malha estampadas, maquiagem de glitter, calça jeans, luvas, cinto e tênis, o figurino, em conjunto com trilha sonora que utiliza ambos rock e música antiga, é responsável por criar a atmosfera de uma adaptação nada convencional da obra grega.

Poropopó

Poropopó, de Luis Igreja (Brasil, 2021), é um dos filmes da curadoria da Mostra direcionado ao público infantil. Este consiste na história da trupe Dandelion e a ida de Julieta, uma jovem palhaça, e seus pais à cidade grande. Através de um desenvolvimento narrativo sem palavras compreensíveis – chamado de “estilo gramelô” – o filme remete aos filmes de Charlie Chaplin e traz a experiência do circo às telas. É composto por um figurino clássico circense, ou seja, que apresenta narizes vermelhos de palhaço, rufos, maquiagem composta de pó branco e símbolos como corações, além de saias e calças volumosas, collants, suspensórios, chapéus e perucas.

Elenco do filme Poropopó, de Luis Igreja (Brasil, 2021) Foto: Divulgação

O filme é um ótimo exemplo quanto à exploração de ambos os figurinos: para circo e para cinema. A obra, gravada em Nova Friburgo, teve apoio da prefeitura local e foi premiada no Edital de Inovação de Linguagem pelo Ministério da Cultura, desenvolveu um guarda-roupa que claramente remete à espetáculos circenses enquanto também apresenta peças pertencentes ao universo cotidiano, utilizadas por personagens da cidade grande que não são membros da trupe.

 

Por Barbara Marques (aluna do 6º semestre do Curso de Moda FAAP), com a colaboração das professoras Maíra Zimmermann e Monayna Pinheiro.

 

O Figurino e o Mercado de Moda