O estilista Marco Normando (acima, à esquerda) ao lado de Fernando Hage e da coordenadora do curso de moda, Camila Rossi, durante a conversa.

O estilista Marco Normando, que lançou sua marca própria Normando em 2019, participou de uma conversa virtual com os alunos do curso de moda da FAAP no dia 18 de novembro. Intitulado “Processos Criativos”, o bate-papo teve como intuito mostrar o percurso de construção do repertório pessoal do criador e os valores por trás da idealização de sua etiqueta, que possui origem e inspiração na Amazônia.

Marco nasceu em Belém em 1990, graduou-se em Moda em 2012 e desde então vem construindo um repertório criativo, transitando em diferentes campos da moda, até lançar sua marca própria. Foi com o relato dessas experiências iniciais que o estilista começou sua palestra, apresentando o seu projeto de graduação “Próteses Ilusórias”, que discutia as mudanças corporais e de silhueta em nossa sociedade. O trabalho se tornou um dos selecionados do Movimento HotSpot, festival criado pela empresa Luminosidade e por meio do qual o designer teve a oportunidade de conhecer Alexandre Herchcovitch, com que trabalhou entre 2013 e 2016. O emprego motivou sua mudança de Belém para São Paulo.

Segundo ele, Alexandre foi um mestre. Como assistente de estilo e responsável pelas fichas técnicas de produto, ele pôde conhecer a fundo o processo de manufatura e técnicas de alfaiataria que hoje fazem parte do seu estilo criativo, além de ter contato com importantes fornecedores e profissionais da área.

Após sua saída, Marco atuou como estilista sênior do segmento adulto feminino da marca Hering, um segmento produtivo bem diferente do anterior, onde, segundo ele, era necessário “atender as necessidades do Brasil inteiro”. Essa experiência em um universo distinto lhe trouxe o entendimento de outros tipos de processos e mercados no campo da moda. E foi assim que surgiu a vontade, como comenta o próprio criador, de “fazer uma marca de moda que fosse abrangente e que ao mesmo tempo tivesse um conceito”.

Como seu primeiro processo de construção do que viria a ser a Normando, Marco inscreveu um projeto para o Prêmio Seiva de Pesquisa e Experimentação da Fundação Cultural do Pará, em 2017. Por meio dele, criou uma coleção inspirada no contexto histórico da cidade de Fordlândia, construída em 1928 às margens do rio Tapajós pelo empresário Henry Ford, interessado na extração de látex, mas que foi desativada em 1945, mantendo ainda hoje alguns moradores.

Isso tudo, como ele comenta, é “uma história bonita e também trágica”, que virou o mote de uma imersão na cidade por uma semana e que resultou em roupas criadas a partir da técnica de upcycling de peças vintage, em sua maioria dos anos 1940, garimpadas pelo criador, incluindo também um macacão com a marca da montadora de carros que se tornou parte de um vestido inteiramente feito em látex da própria região. Esse trabalho foi apresentado como exposição na Casa das Artes em Belém ainda em 2017 e foi assim que as primeiras criações autorais começaram a circular na mão de produtores de moda e estampar alguns editoriais entre 2018 e 2019.

Após essa experiência, o estilista e seu sócio, o fotógrafo Emídio Contente, passaram um ano estruturando a construção do que seria a marca Normando. Segundo Marco, pensada como “autoral, com identidade brasileira”, onde seriam trabalhados “símbolos, imagens e memórias” de sua origem amazônica. Como ele também comentou na palestra, buscando nas suas próprias “raízes elementos que possam inspirar uma manufatura de qualidade”. E assim nasceu a coleção Travessia, que durou entre 2 a 3 meses para ser idealizada e foi lançada agora em 2020, já tendo destaque em revistas como Vogue Brasil, Vogue Portugal e Moda Estadão, em seus primeiros meses.

Fotos Editorial Travessia – Créditos – Modelo: Tayna Carvalho. Fotografia: Jonas Amador

Marco mostrou na sua palestra como suas inspirações se transformam em ideias criativas que primam pelo estudo das formas, pelas técnicas de construção de alfaiataria e também pela subversão de elementos. E assim a cauda do peixe pirarucu, um dos maiores peixes de rio do mundo, se torna um estudo de cauda em um blazer de alfaiataria. Uma de suas peças mais icônicas, a camisa Vitória-Régia, nasceu a partir de uma pesquisa sobre a anatomia das folhas que deu origem a uma modelagem redonda com aplicações de nervura que transformam uma camisa de botões e pregas nas costas em uma obra de arte. As curvas dos rios inspiram recortes e aplicações sinuosas como nos vestidos Pororoca ou Rio Amazonas, e o próprio boto-cor-de-rosa, um personagem das águas amazônicas, se tornou um vestido entre os mostrados pelo criador na conversa. E assim peças como a jaqueta Pau-a-Pique, o conjunto de chemise e calça Jacarandá, até o blazer Una com botões de chifre de búfalo do Marajó, mostraram na palestra como cada criação de Normando é repleta de uma carga conceitual e um primor na construção.

Ao fim de sua fala, Marco Normando comentou sobre a construção da imagem da marca em seus lookbooks, editoriais, assim como na parceria que firmou com a fotógrafa paraense Elza Lima, que colaborou com imagens para a construção da campanha que também se tornou uma série de postais especiais e colecionáveis. Segundo o criador, é importante “construir uma conexão com as pessoas” no processo, e a marca se vale dessa ideia nessa relação com artistas e fotógrafos paraenses que inspiram a coleção e também, como foi comentado pelo estilista, na escolha de modelos como a Alana Martinelli, mulher trans, e Tayna Carvalho, modelo de descendência indígena, que compuseram as primeiras imagens em lookbook e editorial da Normando.

Lookbook da marca com vestido Boto Cor-de-Rosa / Modelo Alana Martinelli / Fotografia: Natasha Ganme

Perguntado ao final de sua palestra em como se deu esse processo de se posicionar e ser notado no mercado de moda, o estilista confidencia que tudo está ligado a “uma primeira palavra, um primeiro contato” e que devemos quebrar a barreira do engessamento que existia na moda de achar que não há espaço para abrir novos diálogos, pois temos que ir atrás para mostrar nossa história. Como ele confidencia: “Cada um precisa de cada um; o fotógrafo precisa do stylist e o stylist precisa da nossa roupa”. Por isso, trabalhar em conjunto é fundamental, assim como saber com quem você quer se comunicar.

Sem dúvida, o estilista Marco Normando deu uma aula sobre como se deve pensar uma pesquisa comprometida na área de moda tanto tecnicamente quanto conceitualmente, da importância de se conhecer o nicho no qual se quer trabalhar, de fazer colaborações, evidenciar o repertório autoral individual e evidenciar o quão rica é nossa cultura brasileira em suas diversas ramificações. Este é o caso da cultura amazônica, ainda tão pouco conhecida nacionalmente, mas tão bem exaltada pela marca Normando.

 

Texto por Fernando Hage, professor do curso de Moda da FAAP