Modelos vestem a coleção “Carta para Nise”, da estilista Ana Luisa Fernandes

*Por Beatriz Teles, do Labjor FAAP

Ana Luisa Fernandes, paraense de 23 anos, apresentou sua marca Aluf na quadragésima sexta edição do São Paulo Fashion Week (SPFW N46), realizada em outubro. A estreia de Ana Luisa faz parte do “Projeto Estufa”, da Semana de Moda, que tem o objetivo de escolher novos talentos. A coleção “Carta para Nise”, da jovem estilista, foi inspirada na arteterapia da psicanalista junguiana Nise da Silveira (1905-1999), fundadora do Museu de Imagens do Inconsciente, no Rio de Janeiro. E a experiência que Ana Luisa Fernandes trouxe para a passarela foi uma das mais elogiadas, de todo o projeto Estufa, pela crítica especializada, como a Revista Vogue e a jornalista Lilian Pacce.

O sol e o céu percorrem a cartela de cor da coleção, de tons amarelados quentes e detalhes dourados. Suas roupas tentam trazer para o dia a dia da vida no escritório a busca da utopia e da plenitude. No mesmo tom, na maquiagem, o sol aquece a pele e significa felicidade, com produtos naturais e eco-friendly (Arielle Cosmetics, Amuse Beauty e Phyto), com misturas de argila com iluminador no corpo para dar um aspecto de ouro e cerâmica.

Ana Luiza, formada em Moda pela FAAP em 2017, conquistou o primeiro lugar na competição The World University Student Fashion Design Competition 2018, que ocorreu na China, na cidade de Qingdao, entre os dias 10 e 13 de outubro (matéria completa disponível aqui). O evento reuniu novas criações de 49 jovens designers da moda, vindos de 25 universidades de 14 países. O concurso contou com 195 peças inspiradas nas culturas, crenças, influências e estilos dos próprios estilistas.

Para falar de sua coleção e carreira, Ana Luisa nos recebeu no showroom da Aluf, um ambiente minimalista, em cores neutras e design moderno nos móveis em madeira do designer Rafael Espindola. Impossível não fazer a relação do lugar com a personalidade criativa da estilista.

Didática, doce e receptiva, Ana Luisa respira e veste, da cabeça aos pés, sua própria marca. Nesta entrevista, ela fala de sustentabilidade, do seu estilo, de negócios e do futuro que prevê para a Aluf.

Ana Luisa Fernandes

Como você se apaixonou pela moda e quando soube que queria seguir essa profissão?

As duas coisas vieram juntas, sempre houve um interesse. Meus pais fizeram uma reforma em casa recentemente e, olhando as minhas coisas antigas, tinha agendas de quando eu tinha 8 ou 10 dez anos falando que eu queria ser estilista, e croquis de coleções com nomes bizarros. Sempre pegava minhas roupas, as remendava e metia a tesoura em tudo. Mas, com a adolescência, eu achava que isso (a moda) não era uma profissão, daí esqueci que gostava disso e, na verdade, só fui retomar como uma possibilidade real quando eu vi a grade do curso de moda da FAAP. Eu vi que a moda não era só roupa, que moda era um raciocínio, envolvia todas as áreas, e sou uma pessoa que gosta de muitas coisas ao mesmo tempo. Vi que a moda incluía tudo isso.

Qual foi seu primeiro trabalho importante no mundo da moda?

Acho que o primeiro e mais importante foram as coleções que fiz na faculdade. A primeira vez que produzi uma roupa, que coloquei em um editorial, que planejei o conceito, talvez tenha sido o meu primeiro trabalho mais importante, porque consegui ver o raciocínio, a construção da peça, a foto e tudo junto. Lembro que eu fiz um vestido com 12 metros de tecido, passei horas costurando, e ainda fui para o Rio de Janeiro e o fotografei.

Quais são os seus principais personagens da moda?

Acho que quando as pessoas respondem a isso, geralmente é muito pela estética, embora eu tenha algumas semelhanças (com certos estilistas), sempre busco novos materiais, como descobrir, inventar ou trabalhar com tecidos diferentes. Por isso, acho que o trabalho da Iris Van Herpen (estilista holandesa de 34 anos) é o mais interessante hoje em dia. A inovação não está mais no “shape” (forma), sabe? Todo mundo já fez vestido curto ou comprido, volumoso ou seco. Acho que a diferença está no material que você usa e na forma que você faz as coisas.

Sobre o prêmio que você ganhou na China, qual foi a importância dele para você?

Como dona de uma marca que tem muitas contas para pagar, esse prêmio foi muito importante financeiramente (risos). Óbvio que sobre a parte de ganhar um prêmio na China, a ficha ainda não caiu. Mas, o meu primeiro impacto foi pensar: “uau, alguém me deu um prêmio por um trabalho que eu fiz”. Eu acredito muito no que eu faço, eu sei que é difícil, envolve muita pesquisa, mercado e um dos motivos de eu ter recebido o prêmio foi a questão da sustentabilidade. Então é incrível fazer algo que você acredita e aparecer alguém que reconheça o seu trabalho.

Qual a sua visão da moda brasileira atual?

Eu acho que tivemos muito bons criadores no passado, e estávamos sentindo saudade disso. Óbvio que temos excelentes criadores atualmente, mas acho que passamos muito tempo na mesmice e quase num monopólio. Não digo monopólio, por ser uma pessoa só, mas parece que há muito tempo as mesmas pessoas estão no mercado e é difícil para essas pessoas se reinventarem, e também para quem está esperando algo novo. Quando você olha o Projeto Estufa, a seleção deles e a estreia de marcas novas, percebemos que estamos em um momento de novos criadores. Acho que a fase da moda brasileira não é mais do desfile, do fashion show, mas sim, de marcas com um propósito, que trabalham com imagem e conceito e que não necessariamente façam um desfile. Vivemos em um momento de raciocínio de uma linha mais contínua do que a marca acredita, e não do que surge a cada coleção. Uma cena mais duradoura e sustentável.

Quais são os seus criadores brasileiros favoritos?

O João Pimenta, acho que ele tem um experimental incrível de materiais, eu lembro uma vez de ver uma palestra dele, e o que ele falou me fez reafirmar no que eu acreditava. Por exemplo, todos os tecidos da ALUF são sustentáveis e nacionais, o que deixa a curadoria extremamente difícil. Mas, ao mesmo tempo, é o que deixa a identidade nova, porque senão todo mundo iria usar o mesmo tecido.

Como surgiu a Aluf?

A Aluf surgiu a partir de uma justificativa que eu queria dar pra mim mesma do fazer moda. Como disse, eu não queria criação no início e depois descobri que era apaixonada por criação, e que era a partir disso que eu conseguia me comunicar, melhor que pela fala. Só que fui criada em um ambiente em que a moda era algo fútil, mas me via fazendo aquilo da vida e não entendia no que isso iria servir para o mundo. Então, eu entendi o processo de arteterapia do trabalho da Nise da Silveira com a justificativa do porquê criar era relevante para o criador, e também para quem usava. Como forma de expressão para quem usa e como forma de cura, terapia e entendimento de si mesmo para quem cria.

Quais foram as dificuldades de montar sua própria marca?

É complexo, são muitas coisas ao mesmo tempo, criação, números e logística. Eu tenho sorte porque sou bem organizada, não tenho problemas com números e gosto de matemática. Você precisa ser uma pessoa bem completa para construir uma marca, saber a hora de ter o criativo, ser metódica e organizada. Ter uma marca envolve um custo muito grande e quanto mais a marca vai crescendo, maior é o investimento. Eu não acho que isso é algo que deva impedir as pessoas, mas também não é brincadeira. Por exemplo, há alguns anos, tudo o que eu tinha feito na Aluf foi com o meu dinheiro, então é questão também de saber lidar com o seu investimento. E acho que isso me deu uma noção maior de comprometimento com o meu trabalho.

Quais são as dificuldades de montar um desfile no SPFW?

Por ser SPFW necessita de uma organização maior, uma logística maior porque são mais looks, é muita coisa para você administrar. Por isso agradeço muito à minha assistente Isabela. Foi muito corrido, mas também eu soube chamar as pessoas certas para me ajudar. Por exemplo, o Felipe Guiter foi o nosso diretor executivo, que auxiliou no que deveríamos fazer.

Você pode explicar essa sua última coleção “Carta para Nise”?

Eu costumo dizer que a Aluf nasceu no processo de arteterapia, que foi o primeiro tema, a cura através da arte, mas isso é a base da marca. O meu processo criativo é muito pessoal, então sempre vai ser sobre alguma coisa que já passei. Nessa coleção, pensei nos dias corridos, que ficamos apenas dentro do escritório, que temos saudade de ver o nascer do sol e de aproveitar esses momentos. É como se eu tivesse refletindo sobre a primeira (coleção). Em um outro contexto, o desfile tem a primeira fase, que é mais maçante, da correria, do dia a dia; tem o meio, que é a arteterapia, atrás da plenitude; e a última, que seria o momento desejado. Porém, a plenitude não é eterna, como eu pensava, e, sim, momentânea. São pequenos momentos de felicidade.

Sua marca é totalmente ligada com a sustentabilidade. Quando você conheceu a moda sustentável e teve interesse nela?

Foi em uma palestra na FAAP. Eu estava naquela dúvida de criação: como fazer as pessoas comprarem coisas feitas por mim, se eu vou estar produzindo mais um objeto, mais um lixo. Por mais que tenha um processo de arteterapia, é egoísmo querer se expressar de alguma forma e gerar algo que vai ser jogado fora do mesmo jeito. Temos brechó por isso. Nessa palestra, que era sobre sustentabilidade e tingimentos naturais, eu vi um caminho, eu pensei “acho que é isso que vai me salvar”. Eu não era a doida da sustentabilidade antes de entrar na faculdade. As pessoas têm uma utopia de que a pessoa nasceu assim, mas não é um trabalho. A sustentabilidade da Aluf não veio por uma questão ideológica, que eu sempre tive na minha vida, ela veio porque eu sou formada em design de moda e a gente entende que design tem que ser um produto pensado para a sociedade. E, dentro de uma roupa, eu acho que é isso que eu posso fazer.

Quais são os desafios de ter uma marca que trabalha com a sustentabilidade e com a transparência?

A dificuldade vem de que você quer fazer um caimento, mas você não consegue porque não existe esse tecido, então você vai ter que mudar seu caimento e o que você tinha imaginado de primeira. Não é fácil essa parte do material. Até porque talvez você seja a primeira pessoa que esteja experimentando aquilo. Então você não sabe o encolhimento, tem que fazer peça piloto, e aí descobre que não dá pra fazer o que queria até chegar em um tecido que funciona. Então o real desafio é o material.

Você pode falar um pouco sobre as peças de material natural que você usou?

Os brincos continuam sendo de cerâmica. As peças, a gente trabalhou muito com algodão reciclado, poliéster reciclado, a poliamida, que é o nosso tecido mais leve e biodegradável. Então, se a gente não usa um tecido reciclado, biodegradável, nós não temos tecido para trabalhar. E todos os tecidos são nacionais. Se a fibra não é nacional, ele é tecido aqui no Brasil. A gente não compra nenhum tecido importado.

Como você lida com a transparência na Aluf?

A gente tem as informações no site, falamos de onde vem os nossos materiais, da nossa seda, que é feita no sul do Brasil, do aproveitamento do casulo, de como é reciclado o algodão e o poliéster.

Como você visualiza uma pessoa que veste a sua marca?

Acho que é uma pessoa muito ligada à arte. Acho que ela entende qual é o conceito da Aluf, de ter uma identidade mais forte, do processo criativo da marca, ela olha a peça e entende que tem um raciocínio por trás. Não necessariamente que ela saiba sobre sustentabilidade, mas quando ela elogia a peça, eu falo que além disso tudo ela é sustentável. Acho que assim a gente consegue educar um público diferente.

Como você se vê no futuro?

Eu me vejo estruturando a Aluf: deixar a empresa redondinha, fazer as pessoas entenderem que é uma marca, não é uma menina qualquer de 23 anos. Não quero que pensem na minha idade e sim que gostem e respeitem a marca. E, na vida pessoal, ter um tempo para a minha família, amigos e namorado.

 

*Beatriz Teles, 18, é estudante de moda na FAAP e participa do Labjor – Laboratório de Produção de Conteúdo Jornalístico dos alunos da FAAP.