Exposição em Nova Iorque destaca vestuário, acessórios e modo de vida no estilo camp, considerado a estética do luxuoso extravagante, da ironia e do mundo queer

 

Até 8 de setembro, Nova Iorque reúne a elite da moda no Museu Metropolitano de Arte de Nova Iorque (MET), na exposição Camp: Notes on Fashion, que explica a estética camp, sua origem e o contexto no qual surgiu.

Com patrocínio da Gucci e apoio da Condé Nast, a mostra reúne mais de 250 objetos de arte camp, desde pinturas e esculturas até vestuário e acessórios que vão do século XVII – com o retrato do irmão de Luís XIV, Filipe I, Duque de Orleans (1661-1701) –, passando pelo século XX, com o autorretrato de Andy Warhol (1928-1987), até os dias atuais – com os looks produzidos pelo estilista Alessandro Michele para a marca Gucci ou a criatura mágica, com a cabeça como dois flamingos, de Bertrand Guyon.

Os principais componentes da linguagem camp são paródia, pastiche, artificialismo, dramaticidade, humor, rebeldia, no universo do luxo, da cultura de massa e da cultura queer da Europa e América do final do século XIX e início do século XX.

A exposição é inspirada em ensaio com o mesmo nome da exposição, da escritora norte-americana Susan Sontag (1933-2004).

Na mostra Camp: Notes on Fashion, o visitante conhece roupas, sapatos, mobiliário, joias e acessórios da história da indumentária, o que se veste hoje e as aspirações e desejos da alta-costura internacional.

Vista da galeria da exposição – Imagem cedida pelo The Metropolitan Museum of Art (BFA.com/Zach Hilty)

A ensaísta Sontag define camp, de acordo com o press release do museu nova-iorquino, como a estética que contém vários estilos mesclados ou justapostos e as características de paródia, pastiche, artifício dramaticidade, exagero e qualidades que fazem parte da linguagem da moda e da arte.

“Não tem como o camp ser comercial. A não ser numa festa camp ou na época de Carnaval e Parada Gay. Até mesmo sem ser um tema camp, a passarela está lá para mostrar uma ideia e gerar assunto jornalístico. Existem a moda conceitual e a moda usável. Essa é a dinâmica da moda, a não ser que seja a de um Armani, que segue propostas mais antagônicas e minimalistas. Não há certo ou errado na moda desde que haja direcionamento correto para aquilo que o público consome”, disse o professor de História da Moda da FAAP, João Braga, ocupante da 39.ª cadeira da Academia Brasileira de Moda e autor do livro História da moda no Brasil.

Ele também destaca que o camp pode ser diluído na moda comercial, como nos excessos de maquiagens, nas diferentes cores de cabelo e na proposta do “agênero”.

A exposição traz, por exemplo, peças extravagantes como uma saia com aparência de carrossel, de Manish Ar, ou o adorno de cabeça na forma do flamingo, de Bertrand Guyon e Stephen Jones. Vê-se também um tênis de plataforma da marca Gucci cheio de brilho e com as cores do arco-íris e o livro com uma peça de teatro do escritor francês Molière (1622-1673), Le Fourberies de Scapin, em que o termo camp aparece como um verbo.

A jornalista especializada em moda, Lilian Pacce, define camp como a contradição existente no mundo de hoje: Camp não é necessariamente o exagero, mas uma ironia. É um pouco do exagero, um pouco da excentricidade. O camp passa por tudo isso. Muitas vezes o exagero está ligado ao escapismo. Em momentos de crise, a sociedade se volta para o exagero, tendo o camp como saída”, explica.

É possível entender o conceito observando 170 roupas da exposição. Cada peça de vestuário representa extravagância, exagero, obsessão pelo detalhe e luminosidade, como a roupa de organza de Koizumio Koizumi, a capa de arco-íris de Christopher Bailey, a capa em verde água da Gucci, o vestido rosa de penas da Balenciaga e o vestido de Viktor & Rolf’s com meme.

 

A exposição Camp: Notes on Fashion revela uma estética também cumulativa, soma de rebeldia comportamental, rompimento com a arte clássica e a adoção de procedimentos e elementos do Barroco e do Rococó. O camp é um tipo de performance e é ligado à cultura queer. Arte camp é dandy.

Baile – MET Gala

O baile MET Gala precede a exposição Camp, Notes on Fashion e ocorre desde 1948, sendo promovido pelo Instituto de Figurino (Costume Institute Benefit) do The Metropolitan Museum of Art (MET), em Nova Iorque, desde 1948. Recebe convidados da alta classe nova-iorquina, pessoas famosas e grandes designers de moda.

Ocorre sempre no primeiro domingo do mês de maio e os temas variam a cada ano. Em 2019, a festa adotou o mesmo tema da exposição: Camp, Notes on Fashion. Ocorreu no dia 6 de maio e teve como anfitriões Andrew Bolton, curador da mostra e também organizador do baile desde 1995, ao lado de Anna Wintour, editora-chefe da revista Vogue norte-americana, Alessandro Michele, diretor de criação da Gucci, Harry Styles (um dos três anfitriões do MET Gala) e Lady Gaga.

O propósito do baile ainda é arrecadar fundos para o Instituto de Figurino, que conserva tecidos, sejam eles avulsos ou da própria roupa. Essa conservação pode sair muito cara devido a inúmeros fatores que podem prejudicar a estrutura do têxtil. O evento financia exposições, publicações e aquisições.

O acervo do MET tem cinco séculos de moda e mais de 35 mil roupas e acessórios dos cinco continentes da Terra desde o século XV. O museu apresenta mais de 5 mil anos de arte de todo o mundo e existe desde 1870.

 

 

Confira no próximo post a continuação da reportagem: Camp como modo de vida e veiculação de ideias.

 

Reportagem de Bruna Nóbrega, Camila Piva, Isabella Maria, Izabella Ricciardi e Mariana Garcia Menendez, da draduação em Jornalismo da FAAP

 

Fonte desta reportagem

Site do MET:

https://www.metmuseum.org/

https://www.metmuseum.org/exhibitions/listings/2019/camp-notes-on-fashion

Imagens cedidas pelo The Metropolitan Museum of Art