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O adeus à rosa – Sabe que o marido a está observando e balançando a cabeça, como sempre faz nessas ocasiões em que ela é toda sentimento. Pode adivinhar a frase que ele está resmungando (“coitada, é louca”). mas nem por isso se apressará no triste trabalho de envolver a rosa no celofane. Ela merece isso. Irá para o lixo, mas com dignidade. Não é mais possível recuperá-la, está estraçalhada, chegou o momento de botá-la fora, mas desse último ritual, o de acondicioná-la com carinho e dizer-lhe ternas palavras não abrirá mão, não importa quanto o marido balance a cabeça e resmungue. Amanhã ele contará aos amigos que ela levou dez minutos preparando uma rosa, como se fosse uma menina morta, para depois colocá-la no lixo. Uma rosa de plástico, ele acentuará, de plástico, e balançará a cabeça: “Coitada, é louca.”

A única – Na juventude, impelido por uma vocação ou talvez só pela fatalidade, sonhou, com ímpetos de botânico e de poeta, em cultivar uma rosa tão singularmente única que pudesse ser proclamada a rainha de todas, a rosa das rosas. Nesse projeto consumiu seu vigor, e tudo teria sido inútil se, já no fim da vida, não houvesse sido premiado com a irrupção, no seu jardim, de uma rosa tão ímpar, como ele desejara, e tão cobiçada, que ele se obrigou a ser seu guardião, para protegê-la do vento e de mãos alheias. Passando os dias e as noites ao lado da rosa, seu júbilo se transformou em tormento e ele, olhando as outras rosas e as flores mais modestas do jardim, perguntou-se por que não se contentara com elas, que poderiam ter lhe proporcionado alegrias mais miúdas, porém bem menos aflitivas.

A rosa que nasceu na cova do Amor – Sob extremo sigilo, os inimigos do Amor, depois de matá-lo providenciaram  seu enterro numa cova de indigente, no lugar mais isolado do cemitério, às três horas da madrugada. Terminado o sepultamento, os dois coveiros foram repentinamente cegados por uma luz que pensaram ser a da lua, mas era a de um sol extemporâneo e vingativo, que os fez correr, alucinados. Quando cada um deles chegou à sua casa, pareciam lobisomens, e foi preciso chamar a polícia, porque ameaçavam devorar mulher e filhos. Ali onde os dois alegaram ter visto o sol, nada se encontrou além das estrelas de sempre. Algumas horas depois, nasceu ali uma rosa estranhíssima, de espécie desconhecida, que só se mostrava ao sol. À noite ficava apenas sua marca na terra. Assim foi por três meses, nos quais o cemitério foi palco de romarias para observar o fenômeno. As pessoas ficavam atentas ao último raio de sol, esperando captar o momento em que a rosa, sem ter falhado uma só vez nesse período, se amalgamava à noite, diante de milhares de olhos incrédulos. Um jornal expôs a teoria de que aquilo era um truque, não mais do que isso, tão banal que não merecia maiores indagações, e se fez uma campanha na cidade, pedindo que se respeitasse o descanso dos mortos. Um reforço policial começou a repelir aglomerações ali. Aos poucos, todos foram se esquecendo da rosa e ela, sentindo-se desobrigada de indicar onde o Amor estava, desapareceu, nunca mais sendo vista. A história está num livro muito antigo, sobre o qual pesa a suspeita de ser fantasioso da primeira à última página. Pesquisadores localizaram recentemente indícios de uma época em que havia rosas e um sentimento que pode ter sido esse Amor citado no alfarrábio. Mas os estudos não foram adiante, por falta de interesse e de verbas.