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“Minha querida, não vou lhe dizer nada. Dizer o quê? Que a amo? Está bom, eu digo. Não tenho dito outra coisa, eu a amo, eu a amo, com essas três pequenas palavras ou com outras, maiores. Disse isso em parágrafos e mais parágrafos, com textos que jorravam como rios, que se precipitavam como cachoeiras, que retumbavam, que faziam espuma, que se exibiam como saltimbancos e pediam aplausos. A quem estou dizendo isso? Você leu todos e – ai de mim – foi como se eu jamais os tivesse escrito.

Hoje peguei um desses textos no arquivo e me perguntei como pude usar certos adjetivos, que nem o amor é capaz de redimir e absolver. Imorredouro? Perene? Santo Deus! Quem permitiu que essas palavras constassem nos dicionários? Imorredouro… Imorredouro! Vi esse monstrengo e ri, ri muito, posso dizer que senti mesmo uma dessas pequenas alegrias que são quase uma felicidade. E você sabe por quê? Porque me lembrei de que, no dia em que escrevi essa estúpida palavra, fiquei em dúvida e quase a substituí por imarcescível. Imarcescível! Isso é que eu fui aprender na escola? Melhor, então, dizer apenas que a amo. Tão simples, tão claro, tão riacho, tão arroio, tão regato fluindo mansamente, tranquilamente, único e sereno como a verdade. Se bem que eu tenha, agora mesmo, vontade de procurar para você mais algumas dessas palavras nas quais você, por achá-las disparatadas, jamais confiou. Fica assim, então: eu a amo, EU A AMO! Ainda que me pareça simples demais.”

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“Meu querido, tola como sempre fui, abri sua carta com impaciência. Minhas mãos não me pertenciam, os dedos não faziam parte delas. Acabei rasgando o envelope e um pedaço da carta. Pareceu-me um mau sinal, como vêm parecendo todos os últimos sinais que têm vindo de você. Não me enganei. Você não mudou nada. Continua confiante nas palavras e no feitiço delas. Vou fazer uma pergunta rude: elas nunca funcionaram, por que funcionariam agora?

Não, você não me ama. Você ama as palavras, você ama fazê-las soar, você ama ouvi-las. Você é um poeta, meu querido. Notou que você não me pede nada? O homem que há em você se acha grande demais para curvar-se. Você não faria isso nem mesmo diante do deus que você proclama ser o seu Deus. Gostei de você ter optado pela carta. Um engenhoso (e romântico) recurso, depois que eu jurei não responder mais aos seus e-mails. Mande mais cartas, se quiser. Talvez em alguma próxima você me convença disso que você diz há tanto tempo: que você me ama.”