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Talvez não seja adequado para ler no café da manhã. É meio triste. Deixe para a tarde. Se gostar, me diga. E diga também se não.

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Sobreviverei

 

Aprendi a esquivar-me

da convidativa vertigem

do metrô e daquela voz

insistindo

pule pule

 

Sobreviverei

Aprendi a passar

pelos amáveis viadutos

desta cidade

e a fechar os ouvidos

para a voz que me sugere

salte salte

 

Sobreviverei

 

Aprendi a amarrar-me

a acorrentar-me

a rasgar as palmas das mãos

com as unhas

a dilacerar os lábios

com os dentes

a clamar por Deus

Deus Deus

 

Sobreviverei

 

Aprendi a salvar-me

nessas noites

que me atacam como feras

duram como séculos

e quando relutantes se vão

deixam minha cama

afogada em suor

e lágrimas

 

Sobreviverei

 

Aprendi a me defender

das cordas das facas

das incitações assassinas

das tesouras dos venenos das giletes

que assombravam ana cristina

da melancolia eslava de clarice

e dos poemas de Sylvia Plath

 

Sobreviverei

tanto quanto

pode um homem

tentado pela Morte

e esquecido pela Vida

simular que não foi chamado

e seguir surdo

e sobreviver.