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Talvez o leitor possa dar alguma atenção, se não ao poeta pelo menos ao nobre produto que ele expõe e anuncia.

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EM VERMELHO NA FOLHINHA

Juro que agora já eu não me lembro

Quando tu me mataste, o mês, o dia.

Como isto aqui talvez seja poesia,

Digamos que foi 7 de setembro.

 

OUTRO DEPARTAMENTO

Faço versos de ocasião

de casamento

de nascimento

de primeira comunhão

poemas de terceira mão

 

Se é poesia o que tu queres

poesia de verdade

uma boa recomendação

é Giórgos Seféris ou

Carlos Drummond de Andrade.

 

AVISO

Que me avises, antes de ires,

As trilhas pelas quais fores.

Para eu semeá-las de flores,

De estrelas e de arcos-íris.

 

TU

Quando acaso penso em ti,

No mesmo erro sempre incorro:

Não sei bem por que vivi,

Porém sei bem por que morro.

 

HIERARQUIA

“Vô, quem manda nas estrelas é Deus ou é a Lua?”

 

VILÃO

Meninos

eu vi

 

Quando a barriga

do gato

começou a cantar

descobriram que dentro dela

cantava um bem-te-vi.

 

MENOS, MUITO MENOS

As nossas opiniões,

Os gritos e a consciência,

São meras divagações,

São pontos de reticência…

 

PASSOS

Andamos um passo, e dois

Recuamos. Já nos achamos

Bem aquém do que almejamos.

Como estaremos depois?

 

O MESMO

Eu voltarei

depois de mais um

retiro prolongado

depois de mais um

suicídio malogrado

e olharão para mim

como sempre olharam

e verão o que sempre fui

um homem de bons princípios

decente e honesto

bem-intencionado sempre

e imutavelmente

fracassado.

 

COMPENSAÇÃO

Me tratas como se eu fosse

Um garotinho bobão

A quem tu negaste um doce

E beijas por compaixão.

 

NAVIO

Passaste como um navio

Pleno de luz e barulho.

Depois de ti, o marulho,

Depois de ti, o vazio.

 

RECOMPENSA

Se um tia tu me apanhares,

Deixa-me por favor vivo.

Se  tu, amor, me matares,

Como serei teu cativo?

 

DE AMOR

Pudesse a morte escolher,

Morrer de amor gostaria.

Pode melhor morte haver

Ou superior honraria?