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No shopping, Dorinne se recorda do professor Henrique. Desde ontem, é a quinta ou sexta vez que ele lhe vem à lembrança. Tantos anos, vinte, e de repente ele volta assim, com o sorriso que encantava as garotas no colégio. Ela parece ouvir ainda os suspiros com que elas acompanhavam as explicações dele em aula.

“Vocês estão apaixonadas, meninas”, ele dizia. E brincava com os meninos: ” Vocês estão estraçalhando os corações delas.”

Não usava aliança, mas alguém disse que ele era casado, ou coisa assim. Isso causou grande decepção, mas algumas garotas mais estouvadas mandaram ao diabo as convenções e os escrúpulos e continuaram a dar escandalosamente em cima do professor Quinho.

Ele era escorregadio e não houve nenhuma aluna que pudesse se gabar de ter avançado naquilo que tinha se convertido quase num ponto de honra para elas: conquistar o professor.

Dorinne ri ao se lembrar das desastradas tentativas de lançar charme sobre ele. Bom, ela era tão jovem e tão boba. O máximo que conseguiu foi receber algumas censuras simpáticas:

“Ah, Dorinne, ah, Dorinne, você é terrível.”

Sabendo que ela era neta de franceses, pronunciava seu nome com um “r” gutural e um alongamento do duplo “n”, que mexiam com ela.

No ano seguinte, ela mudou de bairro e de colégio, e o professor foi ocupando um espaço cada vez menor na sua memória. E, de ontem para hoje, do nada, surgiram essas recordações… Evocar o querido professor Quinho num shopping é um desses disparates que a vêm inquietando ultimamente. Que bobeira é essa?

Ela não acredita em avisos do destino, mas, ao parar diante de uma loja para olhar as ofertas de sapatos na vitrine, esbarra num homem que só pode ser – e é – o professor.

“Dorinne?”

“Professor?”

A princípio tímidos, logo em seguida estão conversando animadamente; ah, aquela professora que nunca conseguia enfiar o carro no estacionamento, ah, aquele dia em que um raio derrubou uma árvore, lembra?, lembra?

Dorinne olha para as mãos do professor: nada de aliança. Ele nota a investigação:

“Vocês eram curiosas.”

Ela sorri:

“É.”

“Eu vou fazer vinte e cinco anos de casado agora no fim do ano.”

Ela mostra a aliança:

“E eu já vou para quinze.”

Os dois suspiram: como passa o tempo… É, como passa. Na hora de se despedirem, ele a beija no rosto e pergunta:

“Eu nunca sei se é um beijinho só, ou dois.”

Ela diz que também nunca sabe. Isso vive mudando. Parece que houve uma época em que eram três. Sente o sangue ferver. Será que o professor a está achando pedinchona? Quando ele a beija de novo, ela nota que o rosto dele também dá a impressão de estar pegando fogo.