Ele está apaixonado. Sabe que está. Já esteve outras vezes, e é a mesma sensação: uma leveza, uma euforia, uma vontade de sorrir, um ímpeto de rir, um desejo louco de gargalhar, gargalhar, gargalhar, estourar de gargalhar.

Sabe que quando está apaixonado seu rosto parece o de um místico que teve enfim a revelação pela qual esperou toda a vida ou o de um tonto que viu um homem cair de uma bicicleta às sete e meia e às oito e quinze ainda não conseguiu parar de rir ao lembrar os palavrões berrados pelo homem e os chutes que deu na bicicleta: vagabunda, lazarenta, prostituta.

Há cinco minutos ele contempla no celular a foto da sua nova amada e, nesses cinco minutos, se alguém o observasse, teria visto seu rosto se alternar várias vezes entre o êxtase místico e a sonsice bovina.

“Minha linda, minha bela, minha gorduchinha querida”, ele diz, e beija o celular. “Sabe que eu estou apaixonado por você? Sabe?”

Não, ela não sabe. Pode até ter notado, nos dois meses em que trabalha na lotérica ao lado do guichê dele, um ou outro olhar mais interessado dele, mas são tantos os homens que todo dia a olham com olhos de cobiça que ela já anda até meio enfadada com isso.

Alguns lhe elogiam a beleza e prometem que, se ganharem um prêmio, comprarão um palácio e precisarão de uma princesa, assim como ela, para compartilhá-lo. Outros dizem que vão à lotérica só pelo prazer de olharem para ela.

Tantos homens lhe fazem agradinhos, lhe dizem gracinhas, mas ninguém nunca a convida para um jantar, um cinema. Fica tudo nas conversinhas bobas ali na lotérica, e toda noite ela vai para o apartamento sozinha, perguntando-se se é mesmo tão bonita. Às vezes se lembra de histórias de mulheres tão maravilhosamente deslumbrantes que acabam afugentando os homens. São, como eles dizem, muita areia para pouco caminhão.Será isso?, ela pensa, mas logo sorri. É presunção demais.

Esta semana teve uma leve esperança, quando o colega da lotérica pediu para tirar uma foto dela. Mas isso foi na segunda, hoje é quinta, e ele não teve mais nenhuma iniciativa.

Prepara-se para dormir, quando toca o celular. É o patrão. Ela gostaria de ir ver um show com ele? Show a esta hora?, ela estranha. Ele diz que é de um violonista e cantor guatemalteco, num clube noturno. Começa às onze. Que tal?

Já tinham dito a ela que o patrão é dado a conquistar as moças que trabalham na lotérica. Ela ouviu isso logo no primeiro dia. Enquanto pensa na resposta, ela sorri: ele é bonitão, mas lento. Dois meses… Melhor recusar, para ele não pensar que ela é volúvel. Se bem que…

Na sua casa, o rapaz desembaça o celular e volta a beijar a foto: “Minha linda, minha bela, minha gorduchinha querida.” Amanhã, sem falta, confessará seu amor. Agora é hora de dormir. Beija mais algumas vezes sua amada, que nesse momento é beijada num ambiente enfumaçado pelo patrão, ao romântico som do violonista e cantor guatemalteco.

Amanhã, ao chegar à lotérica, ele saberá, pela gerente, que será um dia muito trabalhoso. Por ser sexta e também por outro motivo. “O patrão ligou para avisar que deu folga à Rutinha”, ela dirá, com uma voz cheia de subentendidos.