Ele tinha a fama de ser pouco objetivo em seus casos amorosos. Nenhum dava certo. Estava decidido a não falhar mais. Nos três meses que já durava seu novo flerte, pensou que seu amor já estivesse mais do que revelado: pelos olhares longos, pelos sorrisos nervosos, pelas mãos suadas, pela voz cheia de açúcar. Mas, por garantia, resolveu fazer a declaração por escrito. Usou as melhores palavras, juntou-as com a paixão que fervia no seu peito. Queria que elas soassem como um hino, com o mesmo fulgor da história de Oscar Wilde sobre o rouxinol que espetou um espinho no coração para colorir com o próprio sangue uma rosa, porque assim, vermelha, a queria a amada de um poeta.

Lembrou-se também de Gonçalves Dias copiando com seu sangue um poema dedicado a uma mulher querida, e, mesmo não sendo nem rouxinol nem Gonçalves Dias, pôs tanto sentimento no bilhete que suas lágrimas borraram as palavras. Achando que as lágrimas e o sangue azul da tinta iriam dar bom testemunho do seu amor, decidiu não passar a mensagem pelo micro. Levou-a à amada.

Ela pegou a folha distraidamente, e também distraidamente passou os olhos por ela. Ao devolvê-la, perguntou: “Para quem é?” Ele, com o texto de novo na mão, o releu. Estava estupefato. Ali não estava escrito o nome dela, mas de quem mais podiam ser os cabelos, os lábios, as mãos que com tanto fogo ele descrevia? Quem, a não ser ela, podia ser tantas vezes, em dez linhas, chamada de amor? E, cada vez que a palavra amor aparecia, o azul que ele molhara com suas lágrimas dava às suas quatro letras um brilho igual ao de uma flor orvalhada.

A folha tremia nas mãos dele. Ela voltou a perguntar: “Para quem é?” Ele olhou bem para ela. Devia estar brincando com ele, fazendo charme. “Ah, é para uma pessoa muito especial para mim. Eu queria saber sua opinião.”

Ela sorriu: “Eu achei muito bom. A pessoa vai gostar.” Com os olhos úmidos, ele agradeceu.

“De nada”, ela disse, começando a afastar-se. Não olhou para trás. Mesmo que olhasse, certamente não se importaria com as lágrimas dele, agora molhando seu rosto, descendo para a boca e juntando-se às outras na folha de papel.