pixabay

Um poema com homem, jornal, cão e sofá. Uma cena comum que se desenrola enquanto os personagens do mundo se matam.

+++

Como toda manhã

o homem lê o jornal

sentado no sofá

 

Como toda manhã

o cão espera

ao lado do sofá

 

O mundo de sempre está

no jornal esta manhã –

os mesmos fatos

as mesmas disputas

entre as mesmas facções rivais

os mesmos estupros e assassinatos

hediondos todos

alguns mais

 

O cachorro sabe que logo

o homem fechará o jornal

e como toda manhã

irá providenciar sua ração

 

É sempre assim mas hoje não –

o tempo corre e o cão

começa a se tornar impaciente

ameaça gemer

mas o homem não se move

 

O jornal continua aberto em suas mãos

desliza agora um pouco para o colo

e é como se o homem

lendo uma notícia boa afinal

tivesse se concedido

dormir um pouco

reconciliar-se com o mundo

como se já não houvesse

estupros assassinatos

peste fome

suplícios danação

jovens vozes caladas por balas

porque ousaram

colocar a esperança

entre as palavras

de sua canção

 

 

Como se o mundo

fosse só um homem

cochilando no sofá

observado pela fome

agora aflita do cão.