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Venho aqui confessar que padeço de dores nas costas. Com sete décadas de vida, esta é uma declaração que só pode ser considerada óbvia. É o que ela é. Numa época em que meritocracia é uma palavra-chave, são dores mais que justas, estarão vocês dizendo – e digo eu.

Aceito essas dores e, já que de costas se trata, eu as carrego nas próprias, não sei se com classe, mas ao menos sem maiores vexames: nada além de um ai aqui e outro ai ali, com um eventual ai entre um e outro. Mais aizinhos que aizões, coisas que não chegam a comprometer o prontuário de um bravo descendente de polacos.

Mencionadas com esse deboche, minhas dores podem ser menosprezadas por vocês e classificadas como comuns. Mais comuns, ainda, se eu disser que as sinto desde os trinta e sete ou quarenta e dois anos, depois de levar de cavalinho um dos meus filhos, já não lembro qual.

Bom, aí vocês já notaram que, além das dores nas costas, padeço de problemas de memória. Não muito graves, pelo que me lembro. Confundo às vezes uma coisa com outra coisa e outras vezes duas coisas com duas outras coisas.

Andei preocupado com isso, até ver num programa de tevê, ou ouvir num programa de rádio, que a causa é simplesmente uma carência de vitamina D ou E. Comprei um vidrão – um desses complexos vitamínicos de A a Zinco – e tenho me sentido bem melhor, ou um pouco.

Mas eu estava falando de quê? Ah, de algumas confusõezinhas que venho fazendo. Na hora em que cometo uma, fico constrangido. Mas logo esqueço. Afinal, é crime chamar Castro Alves de Castro Álvares e Álvares de Azevedo de Alves de Azevedo?

No mais, estou bem. Respiro sem precisar concentrar-me muito, alimento-me quase bem e não durmo muito mal.

Minha mulher, de modo geral, concorda com a minha avaliação, com uma(s) ou outra(s) ressalva(s). Ela diz – e, se precisar, jura – que outro dia fiz sinal para o metrô parar. Pode até ser, mas não me lembro. Acho improvável. Eu não ousaria: toda vez que levanto o braço, sinto uma pontada nas costas.