Os escritores geralmente são vistos como passarinhos que querem se fazer passar por pavões. Escreveram coisas que ninguém leu, livros que ninguém sabe quais são, e andam de nariz empinado pela rua, como se fossem o Manoel Carlos, o Aguinaldo Silva ou o Walcyr Carrasco.
Eles usam palavras esquisitas – coletânea, posfácio, antologia – como se estivessem dizendo pipoca, fubá e abobrinha, e têm sempre aquele ar de quem contempla maravilhas que só eles veem.
Quem esse sujeito pensa que é?, vivem se perguntando as pessoas normais quando se referem a um escritor. A resposta é óbvia: um escritor pensa que é um escritor, e imagina ter o direito de se considerar assim. Trabalhou para isso, leu tudo que pôde, se preparou.
E, se na recepção de um hotel ou num questionário do IBGE não pode se dizer escritor, ele supõe que em situações menos formais possa confessar que é, sim, um escritor.
Mas, quando ele admite, acontece o quê? Logo perguntam qual é a cadeira dele na Academia Brasileira de Letras e se lá é chá mesmo que se bebe ou alguma coisinha mais forte. Depois, querem saber se foi ele quem escreveu Cinquenta tons de cinzamenina que roubava livros ou O caçador de pipas. Como não foi, recebe o carimbo: ah, então ele é um daqueles escritores, como é mesmo?, bissextos, aqueles que de vez em quando assinam um texto na seção de cartas dos leitores queixando-se do barulho na rua tal depois das dez da noite ou de um poste que ao meio-dia insiste em permanecer com a luz acesa na avenida qual.
É antiga essa estranheza com que são vistos os escritores. Paulo Mendes Campos, um de nossos maiores poetas e cronistas, tendo contratado um trio de pintores para um trabalho em sua casa, sentiu a curiosidade com que o observavam enquanto ele batia à máquina seus textos para jornais e revistas.
Lá pelo terceiro dia, depois de muitos palpites e debates sobre qual seria a profissão dele, os pintores concluíram, unânimes e vitoriosos: era, sem dúvida, um datilógrafo.
Hoje, se alguém se disser datilógrafo será encarado com o assombro que provocaria um dinossauro andando de skate pela Praça da Sé e perguntando onde fica a Rua Barão de Paranapiacaba.