pixabay

pixabay

A melhor crônica é quase sempre a que nasce do nada. Quem vai escrevê-la nem está pensando nela. Pode ser até um profissional, alguém que vive disso: de fazer crônicas para revista ou jornal. Mas nesse dia, aquele em que escreverá sua melhor crônica, ele não pensa em texto nenhum.

É sábado e ele acaba de acordar. Abre a janela do apartamento e um sol glorioso, de puro ouro, o obriga a fechar os olhos por um instante. Ele enche os pulmões com o ar matutino, que lhe traz o perfume das flores e da grama do jardim do condomínio. Já habituado à claridade, ele reabre os olhos e vê um passarinho bicando uma flor.

Ah, ele sorri. É seu primeiro dia de férias. Como estava precisando delas. Quando ele diz que seu trabalho o esgota, ninguém acredita: escrever três crônicas por semana era por acaso uma epopeia? Três crônicas por semana! E sem precisar sair de casa, sem os incômodos do transporte e os emaranhados do trânsito. Que problema havia em escrever três crônicas por semana?

Ele, meio bem, meio mal-humorado, dá sempre a mesma resposta. O problema está exatamente naquilo: em escrever três crônicas por semana. E, fazendo o dedo médio estalar no polegar, pergunta: pensam que uma crônica nasce assim, por geração espontânea?

Todos imaginam que é assim mesmo: um estalar de dedos e pronto! Só ele sabe o terror que é conseguir um assunto e desenvolvê-lo. Como é penoso, pensando haver encontrado o tema ideal e às vezes tendo escrito dez, doze, catorze parágrafos, do primeiro ao último, descobrir que tem dez, doze, catorze parágrafos, mas não tem uma crônica. Ah, nada como um dia, como uma semana, como um mês longe do tormento de começar, prosseguir, concluir e novamente começar, prosseguir e concluir.  Ele suspira: como a vida, sem a obrigação de escrever crônicas, é boa.

Durante esses momentos de divagação, ele tirou sua atenção do passarinho que bicava a flor. Agora, voltando a olhar para ele, se apavora. Félix, o gato do zelador do condomínio, aproximou-se felinamente do passarinho e o examina com ar guloso. Mais um instante e a buliçosa ave vai virar almoço.

Sem ter como agir, o cronista prepara-se para ver uma cena horrível. Mas o que acontece? O passarinho não parece nada assustado com o gato e, em vez de continuar bicando a flor, canta para ele, como uma prima-dona na ópera. E Félix, quem diria, o acompanha com miados de barítono.

O cronista está encantado com o espetáculo. E mais encantado ainda fica quando a loirinha do sexto andar, a mais linda mulher do condomínio, caminha na direção do gato e do passarinho e abre freneticamente a bolsa. Quando ela puxa o celular, já é tarde. O passarinho voou. O cronista pode ver, então, como continuam belos os lábios dela, mesmo quando dizem um palavrão.

Alguma coisa maravilhosa e muito terna o faz ir para o micro, como se precisasse. Ele imagina que a cena do gato e do passarinho talvez possa ser apreciada pelos seus leitores.

Vai escrever a crônica e testá-la, na volta das férias. Faz muito tempo que não se sente assim. Tem o prazer que tinha quando ainda nem pensava em se tornar um cronista profissional, quando era um amador. Envolve-o uma sensação de honestidade. Parece justo, isso. Afinal, os leitores são amadores, não são?