O assunto era concordância, e o professor de português estranhou quando, no meio de uma explicação, uma garota disse bem alto, para a classe:

“Vocês já repararam como a gramática é machista?”

“O quê?”, perguntou o professor. “O que você disse, Juliana?”

“Que a gramática é machista.”

Por um momento houve um silêncio absoluto, quebrado pela exclamação de outra garota:

“É isso aí, Ju!”

Então todas as garotas se agitaram, aplaudindo. Isso atiçou o espírito revanchista dos garotos, que iniciaram uma vaia. O professor viu-se obrigado a se levantar da cadeira, armar sua expressão mais severa e exigir respeito. O que estavam pensando? Aquilo ainda era uma sala de aula. Ou não era? Quando o tumulto diminuiu, ele quis saber:

“Como foi que essa bagunça começou?”

Todos, garotos e garotas, olharam para Juliana, que, empolgada como uma mártir, respondeu:

“Começou quando eu disse que que a gramática é machista.”

“Posso saber por que você disse isso?”

Juliana estava com o livro aberto:

“Vou repetir o que o senhor acabou de ler. O adjetivo irá para o masculino plural quando um dos substantivos for masculino. Exemplo: bailarino e bailarina clássicos. Preciso dizer mais alguma coisa?”

Depois de um instante de reflexão, houve nova explosão de palmas das garotas, acompanhada de assobios recriminatórios dos garotos. Um deles berrou, zombeteiro e desafiador:

“Se a gramática é machista, viva a gramática!”

O professor precisou intervir outra vez. Restabelecida a calma, ele sorriu:

“Sabe que eu nunca pensei nisso assim, nesses termos?”

“Ah, claro, o senhor não é mulher”, comentou Juliana. “O senhor acha justo isso? Se um homem e nove mulheres ganham um prêmio num concurso qualquer, a gramática manda dizer que os dez foram premiados. Que traidora essa dona gramática!”

“Eu não posso fazer nada”, replicou o professor, rindo. “Não fui eu que fiz a gramática.”

Um garoto resolveu provocar Juliana:

“Gramática não é matemática. E se um homem e nove mulheres assaltassem um banco? A gramática ia dizer que os dez são bandidos, não é, professor? Aí as mulheres vão achar que está certo?”

A discussão voltou a ficar acesa e ameaçava descambar para o xingamento entre garotos e garotas, quando o sinal de encerramento da aula soou.

Aliviado, o professor anunciou:

“Podem ir. Vocês estão dispensados.”

Os rapazes aplaudiram. Quando as garotas se puseram a vaiar, o professor disse, apontando para elas: “Vocês também estão dispensadas.”