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Com rimas pobres e às vezes sem nenhuma, algumas reflexões sobre uma porção de temas, se me permitem os leitores.

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GAVETA

Dos papéis arquivados

sobe um gemido.

Um verso hermético

há muito tempo guardado

só agora

descobre o seu sentido.

 

VIDA PASSADA (1)

Para sondar meu passado

tentei uma regressão

e descobri, espantado:

fui égua de Napoleão.

 

VIDA PASSADA (2)

Querendo saber de mim

fiz hoje uma regressão

e descobri, com emoção:

fui avô do Rin Tin Tin.

 

DISCRIÇÃO

O amor deveria

ser como um gato:

sofrer sem um ai

morrer sem um miau.

 

HAICAI (1)

No bico trazia

o sol fresco do arrebol

e as cores do dia.

 

HAICAI (2)

O vento buscou

mensagens entre as ramagens;

nenhuma encontrou.

 

E AGORA?

O assassino chegou. Ele

Invade a casa e me vê.

Se jogo a garrafa nele,

Depois vou beber o quê?

 

AMANHÃ

Na segunda ficou doente

E pensou: saro amanhã.

Mas na terça, de repente,

Morreu de febre terçã.

 

KAFKIANA

Ele nunca descobriu

Do que o tinham acusado.

Levado a júri, mentiu

E se declarou culpado.

 

CRUZES!!!

Estando na biblioteca,

Eu peguei um livro e – mein

Gott! – li que usava cueca

madame Gertrude Stein.

 

NAS ÚLTIMAS

Estou com tamanha gripe,

Tão débil, tão sem saúde,

Que é só me carimbar “rip”

E me enfiar no ataúde.

 

COSSACO

Depois de uma esbórnia,

tirou a farda, surtou,

cantou ótchi tchórnia.

 

A PERGUNTA

Depois que tudo aprendeu

(desde as mais simples teorias

às grandes filosofias)

perguntou: mas quem sou eu?

 

APITO

Sentir que os dias já vão,

sem clemências ou piedades,

chegando à prorrogação

e às cinco penalidades.

 

PUBERDADE

Chega um momento

em que se deve

chamar a poesia

e lhe dizer francamente

como a um garoto se diria

que está na hora de crescer.