Ele a conhece há dez dias – por coincidência, os dez mais intensos e felizes dias de sua vida. Aprendeu muito nesse pouco tempo. Já sabe andar nas nuvens, falar sozinho na rua, argumentar, contra-argumentar, gesticular. Sorri à toa, ri à toa, gargalha à toa.

Outro dia, no metrô, viu que batiam palmas para ele, e só aí notou que estivera assobiando, talvez por três ou quatro estações, a mais estranha das músicas que alguém pode assobiar num metrô: Parabéns a você. Um senhor, encantado, elogiou: “Você assobia como um menino.”

Ontem, surpreendeu o pai quando, ao conversar com ele pelo telefone e ouvir mil queixas sobre dinheiro e saúde, disse:

“A vida é bela, pai.”

“Você escutou o que eu disse, filho?”

“Escutei”, ele mentiu. Todo o tempo estivera pensando na mulher, na mulher que conhece há dez dias, na mulher de sua vida.

Essa mulher o fez voltar aos dezesseis anos. Sente-se deliciosamente estouvado, tolo, destrambelhado. Ímpetos românticos, esquecidos na adolescência, voltaram a aflorar. Ele quer se dar a ela, a essa mulher querida. Gostaria de se transformar num objeto bem miúdo, que ela pudesse tomar inteiro na mão e segurar, ainda que por um minuto só.

Tem tantas coisas a dizer a ela. Desde o primeiro dia, só lhe disse obrigado e boa noite, depois de ela pesar seus três pãezinhos e entregá-los.

Hoje ele entra na padaria com a determinação de dizer mais, muito mais. Ela empacota os três pãezinhos, pesa-os, passa a ele.

Ele treme, quando diz: “Obrigado. Boa noite.” E treme ainda mais quando convoca toda sua coragem e oferece: “Se você me pedir qualquer coisa, o mar, a lua, eu juro que trago pra você.”

Ela não diz nada. Fica um instante indecisa, como se escolhesse entre o mar e a lua, depois sorri. Mas o sorriso não é para ele. É para o homem gordo, atrás dele, a quem ela diz: “Próximo.”