Foto: Morguefile

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Nem sempre fui este senhor que passa os dias no sofá, diante da tevê, acompanhando as voltas e reviravoltas dos processos judiciais, dos recursos e de todas as outras medidas que transformaram o País num tribunal e os brasileiros em juristas sem carteirinha da OAB.

Houve tempo em que me dei a estripulias de todo tipo, especialmente as alcoólicas e as amorosas, que,  juntas, levam o homem tanto ao paraíso quanto ao inferno com rapidez e segurança científicas.

Apesar dos pesares, ou justamente por eles, não me queixo dessa época, e retornaria a ela, se não me faltassem já certas, digamos, condições.

Hoje sou um homem de meia-idade – uma expressão evidentemente mentirosa, já que, se tomada ao pé da letra, ou do número, me garantiria 140 anos de vida.

Bem, eu estava dizendo que sou um ser sedentário (com toda a antipatia que essa designação possa provocar nos leitores). Viciei-me, como já mencionei, na legislação civil, penal, fiscal  e constitucional, e às vezes me entusiasmo tanto com os debates sobre esses temas que lastimo não ter um gato, para nós dois compartilharmos opiniões.

Venho saindo cada vez menos. Têm sido decepcionantes minhas caminhadas pelo bairro, o meu querido Jardim da Saúde. Por onde ando, encontro sinais de uma apatia que contrasta com o vigor e o estardalhaço vistos nos tribunais.

Ponho os olhos ali, onde havia um bazar, e cadê o bazar? Onde comprarei agora os lápis, as borrachas e os apontadores para o meu neto Gianluca? E os bloquinhos nos quais escrevo as impressões que às sextas-feiras transmito aos leitores?

Onde está a lojinha de bolos e doces que espalhava por dois ou três quarteirões aquele aroma superior ao das flores?

Onde, por Deus e todos os santos, está o pequeno depósito de materiais de construção no qual eu tinha sempre a certeza de achar aquela meia dúzia de telhas para consertar os vazamentos que as chuvas cantareirais abrem no meu já quase quarentão sobrado?

E onde está o barzinho que servia refeições caseiras por precinhos camaradas, diante de cuja tabuleta eu testava minha ortografia vendo se palavras como berinjela e chuchu estavam com as letras certas?

Lugares que faziam parte do meu dia a dia e eram úteis, para mim, ou ao menos agradáveis, foram substituídos por um aviso de três fatais letras: passo o ponto.

Tudo isso é muito triste. Essas placas e as portas baixadas me parecem uma irrecorrível sentença. Vejo a cara do meu bairro e ela é a cara de um doente. Um solitário passarinho desprende-se como um fruto de uma árvore na Biblioteca Amadeu Amaral e voa em silêncio no rumo da Avenida Bosque. Onde estão os outros? Eram sempre tantos. Ele deve estar procurando por eles.

O Brasil é hoje como esse passarinho: procurando os outros Brasis. Sabe que existem. Ele mesmo foi um deles. Que os encontre, penso eu, com uma esperança que por honestidade não posso considerar forte.