O jovem, especialmente aquele que tem o sonho de um dia ser escritor, logo se põe a fazer um estoque de palavras. Recolhe-as dia a dia. Não tem ainda um critério para avaliá-las e as acolhe com sua pressa de principiante.
Nas provas, no colégio, vai testando seu arsenal. Os professores elogiam seu vocabulário. Que aluno, além dele, poderia exibir adjetivos como crucial, visceral, limítrofe, e advérbios como primordialmente, subjacentemente e mormente?
Sua fama se espalha e ele começa a ser chamado de Escritor. Poemas seus passam a ser publicados no jornalzinho do colégio, e sua pasta de recortes se encorpa. Em casa, ele já é observado como uma futura celebridade.
Empolgado, incorpora sem cessar novidades aos textos: bel-prazerauspícios, primórdios, procrastinação.
Abre-se um concurso municipal de poesia. Ele envia um poema intitulado Elucubrações de um herege no plenilúnio. São duzentos e nove concorrentes. Não passa pela seleção preliminar, na qual são escolhidos cem.
Sente-se terrivelmente injustiçado. Só depois de muitos dias imagina que talvez a comissão julgadora estivesse certa. Relê o poema e nota como foi pernóstico. Aprendeu uma lição: há palavras que podem ser lidas, mas não devem ser escritas.
Eu, quando menino, tive uma experiência que até hoje me faz corar. A irmã de minha tia era cantora lírica e, em certo dezembro, cantou uma ária em casa, na ceia de Natal. Encantado com sua voz, eu a abracei e disse que queria prestar-lhe uma homenagem, póstuma. Era um termo que eu tinha lido uns dias antes. Com sua voz solene, de contralto, ela me respondeu que eu teria de esperar algum tempo, talvez muito, enquanto minha família toda gargalhava. Até hoje não sei como os enfeites da árvore não desabaram sobre mim.