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Boa noite, estrelas, tão altas, tão frias, tão indiferentes, tão surdas ao sofrimento humano. Boa noite, estrelas, Deus vos guarde e mantenha, estrelas. Que possamos ter sempre, vendo-as tão altas, tão frias, tão indiferentes e surdas, a medida de nossa pequenez, e, tendo-a, não nos atrevamos mais a pedir ajuda ao céu para aliviar nossas ridículas misérias. Boa noite, estrelas, discretas testemunhas de nossas desgraças.

+ A tristeza cai bem a ela, quando abaixo dos cabelos negros as lágrimas acendem duas estrelas.

+ O menino vinha bravateando que uma noite ia encostar uma escada no muro, subir por ela e voltar com os bolsos abarrotados de estrelas. Há três noites morreu, a mãe disse que foi para o céu, e os meninos estão esperando que ele cumpra a promessa. Já começam a desconfiar que é difícil despregar as estrelas e que o amigo está com vergonha de voltar com os bolsos vazios.

+ Na noite de lua cheia, o homem se atirou ao mar e teria morrido, se não o socorressem. Estenderam-no na praia e o fizeram expelir o ar dos pulmões. Em cada golfada saíam quatro ou cinco estrelas, que aos adultos passaram despercebidas, mas com as quais um garoto encheu um balde de plástico. As estrelas que não couberam no balde foram recolhidas pela maré alta, que as levou de volta às ondas, para que servissem de guia aos navios, de alimento aos peixes e de última visão aos nadadores desastrados ou aos suicidas.

+ As mulheres deveriam tratar os poetas como se eles fossem meninos. É o que eles são. Meninos a quem convém perdoar tudo, pelo dom que têm de conversar com as estrelas. Meninos que, dotados desse privilégio de conhecer as estrelas, certamente sabem do que falam quando as comparam a algumas mulheres.

+ Passava as noites na areia da praia, olhando para o céu. Às vezes, punha-se subitamente a correr. Não falava com ninguém, mas dizia-se que julgava ver estrelas caindo e ia recolhê-las. Nunca ninguém viu uma sequer na sua mão. Talvez tenha tido melhor sorte numa noite em que correu para dentro do mar. Nunca mais apareceu.

+ Se uma pessoa me disser, uma só, que em certas manhãs Mario Quintana distribuía migalhas de estrelas aos pombos, eu acreditarei – ainda que mil pessoas me assegurem, e provem, que nunca houve estrelas nem pombos em Porto Alegre.