Ela acabou de se enxugar. Passa a mão no espelho, para desembaçar, e coloca-se diante dele num ângulo que lhe permita ver-se inteira. “Você não está mal, Debrinha”, avalia.
Satisfeita assim com a boa aparência dos seus trinta anos, põe a calcinha, o sutiã, boceja voluptuosamente e antevê a gostosura que será esparramar-se na cama e dormir direto, até as oito da manhã. Há uma semana que Marcos foi embora e ela redescobre agora que o apartamento não merecia ser chamado de caixinha de fósforos, como ele fazia.
Mas o melhor, nessa reconquista de espaço, é a cama. Que delícia escurecer o quarto e entrar nela como se fosse um veleiro flutuando num mar de aquarela.
É fechar os olhos e aproveitar. Ninguém para atormentá-la com abraços, beijos, ninguém cheio de braços, pernas e cotovelos nos quais a todo instante ela esbarrava, quando não esbarravam nela.
Ah, esticar-se e dormir, dormir. É nisso que Débora pensa quando vê a lagartixa mover-se acima do espelho. Com o coração dando triplos saltos mortais sem rede, Débora vai recuando. Sua respiração se descompassa quando ela sai do banheiro deixando lá dentro a lagartixa.
Dormir sozinha e toda espichada já não lhe parece nada bom. Duas palavrinhas começam a se repetir em seu cérebro: e se? E se a lagartixa fosse daquelas mal-intencionadas? E se ela a esperasse dormir para ir até o quarto e saltar na cama? Aflita, imagina-se com aquela coisa repugnante no seu pescoço.
Fecha a porta do quarto, apesar do calor, e, mesmo receando que a lagartixa possa ser atraída pela luz, resolve deixá-la acesa. Cobre-se com o lençol, deixando só uma abertura para o nariz, e lhe ocorre como seria útil se Marcos estivesse ali e pudesse dormir com ela, mesmo com todos aqueles seus braços, pernas e cotovelos. Ele daria um jeito na lagartixa, como tinha feito um mês antes com aquela outra que aparecera, também no banheiro. Débora havia corrido para fora e ele, rápido, apanhara um chinelo para socorrê-la. Ela ouviu dois ou três ruídos secos e, depois, o da descarga. Lá se foi ela, Debrinha, resumira Marcos, modestamente. Já era.
Lagartixas parecem todas asquerosamente iguais, pensa Débora, lembrando-se do episódio, e de repente começa a resmungar: ah, Marcos, seu patife, até nisso você me enganou. Essa lagartixa é aquela, não é? Não é, não é?
E cobre a cabeça toda com o lençol.