casal-1808537_1280 (1)Louvo hoje o sexo, suas proeminências e reentrâncias, suas delícias e desmaios, suas olheiras, suas faces encovadas, suas axilas suadas, seus masoquismos e sadismos, suas algemas, seus chicotes, suas libertinagens e suas libertações. Louvo o sexo limpo, o sujo, o deslavado, o oculto, o aberto, o escancarado e o arreganhado. Louvo o sexo real e o virtual, o diurno, o noturno, o soturno, o embargado e o desbragado, o útil e o fútil, o ativo, o passivo, o interativo, o sério e o recreativo. Louvo o sexo como ele deve ser louvado, sem hipocrisia e sem mistificação. E, por ter louvado por décadas e décadas o amor sem sexo, o romântico amor que os poetas cantam, louvo agora, por justiça e gosto, o sexo sem amor.

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É antiga a discussão sobre se na literatura é apropriado descrever cenas de sexo. Parece-me uma questão de resposta óbvia. Será o sexo algo que se deva excluir como tema de uma obra de arte? Quando se fala de mau gosto, não há de ser do assunto em si, mas do modo de tratá-lo. Anatematizar o sexo, pura e simplesmente, não tem consistência como argumento. E repudiar livros que falem exclusiva ou quase exclusivamente de sexo é tão ingênuo quanto seria proibir manuais de jardinagem ou culinária, por se fixarem num assunto específico. O interesse por sexo costuma ser tachado como obsessão. Jogaremos pedras em Jamie Oliver por sua insistência em colocar diante de nossos olhos as delícias das massas e da carne?

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Os amores impossíveis caíram de moda. O que sobrou deles, ou melhor, a memória do que eles eram, mal dá para o consumo do cinema, do teatro e da literatura. A época é a dos amores possíveis, dos vários amores possíveis. O sexo comanda o espetáculo – e o sexo não tem o estoicismo do amor. O sexo quer ser satisfeito e sua paciência é pouca. Se não lhe abrem a porta à qual foi bater, ele bate à porta vizinha. O amor voltado para um homem só, ou uma única mulher, por toda a vida, não existe mais. O amor não está mais catalogado entre os grandes sentimentos, mas entre as comodidades da vida moderna. O amor é um hábito, como comer ou dormir, uma dessas coisas que se fazem quase automaticamente. O amor tresloucado é hoje incompreensível e ridículo, algo imediatamente relacionado com a ignorância e o atraso.