Ele se lembra de quem pela primeira vez lhe falou da beleza como valor supremo. Foi no seu terceiro ano de colégio, no primeiro dia de aula. A professora apresentou-se, disse que estava feliz por poder ensinar a uma classe de alunos e alunas tão simpáticos, resumiu o que estudariam naquele ano e iniciou a chamada: “Vamos começar a nos conhecer.”

Cada aluno recebia dela palavras amáveis. Ele não conhecia ainda metáforas. Só alguns anos depois, lendo um livro de poesia, ele encontrou a definição de como soou a voz da professora naquela manhã: límpida como um riacho.

Quando chamou seu nome, ela lhe perguntou se ele era descendente de italianos e lhe recomendou que visitasse Roma, Florença e Veneza. “Ali está a beleza”, ela suspirou, e nos seus olhos luziu um azul de céu.

Trinta anos se passaram, e, quando quer se lembrar exatamente do rosto dela, e da voz, ele se concentra para trazer de volta aquele momento em que ela suspirou e disse: “Ali está a beleza.”

Dois meses depois dessa manhã, a diretora entrou na classe dele para apresentar a nova professora. Os alunos estranharam. O que teria acontecido com a outra? Durante algumas semanas, vários boatos correram no colégio. Descobriu-se, afinal, que ela havia sofrido um acidente e seu rosto estava muito ferido. Não queria que ninguém a visse. Comentou-se que tinha uma cicatriz. Levaria algum tempo para voltar.

Ela nunca voltou. Hoje ele vê na banca uma capa de revista com a foto de uma mulher maravilhosa e, em letras enormes, a pergunta: “O que é a beleza?”

Ele tem trinta e oito anos. Parado na banca, lembrando a professora de olhos azuis, ele chora como um menino de terceiro ano diante do atônito jornaleiro.

Chora porque há algum tempo já não pensava nela nem naquela manhã na qual ouviu, dita com a entonação exata, a palavra que até hoje lhe parece a mais mágica entre todas.

Sob o olhar do jornaleiro, ele diz essa palavra, e a repete, e a diz de novo: beleza, beleza, beleza.