Hoje, 12 de junho, Janice se lembra do primeiro namorado. Era Juan, um loirinho lindo, gorducho, apetitoso, crocante, mas muito imaturo. Ela estava com doze anos. Ele também, mas parecia ter oito. Um boboca, tadinho. Era difícil conviver com ele. Não gostava de fazer nada, ou quase nada.

Ela recorda as ocasiões em que o convidou a brincar de médico e ele, com aquela cara de palerma, sempre dizia que de jeito nenhum, porque era apavorado com doenças e com hospitais. Lembra-se das vezes em que o agarrou, o apertou e o desafiou a lutar: vem, molenga, vem. E ele escapando: se chegasse machucado em casa, ia apanhar da mãe.

Juan sabia pular corda, isso Janice não pode negar. Sempre conseguia uns dez ou quinze pulos mais que ela, e a deixava ferida em seu orgulho feminino. As competições acabavam sempre do mesmo jeito: com os tapas que ela dava cuspindo palavrões e ele recebia choramingando.

Um dia ela mudou de tática: depois de ser novamente derrotada, aproximou-se de Juan com a corda e passou-a em volta da cintura dele.

“O que você está fazendo?”, ele perguntou, recuando.

“Você é meu prisioneiro”, ela disse.

“E o que um prisioneiro faz?”

“Você faz o que eu mandar.”

“Só isso?”

“Só.”

“Tá bom.”

Isso foi há doze anos. Seu namorado atual é um daqueles que ela e as amigas chamam de esganado, um dos que só pensam naquilo: sexo, sexo, sexo. Que diferença para o pobre Juan . Sorrindo, Janice se lembra da palidez de Juan naquela manhã em que, passando-lhe a corda pela cintura e declarando-o prisioneiro, ela o mandou fechar os olhos e o beijou na boca. Lembra-se também de como o rosto dele ficou instantaneamente rubro e deu a impressão de que explodiria.

Depois do beijo, ele saiu correndo. Ela imaginou que ele nunca mais apareceria. Mas no dia seguinte ele veio, ressabiado. A primeira coisa que fez foi avisar que não brincaria de pular corda. Nem de prisioneiro.