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Sabe aquele tipo que não pode ouvir alguém começar uma frase, que logo a pega no meio e a conclui? Há muitos desses por aí, certamente mais do que gostaríamos.

Você diz: “Eu estava saindo da editora e me atrasei porque…”

“Uma daquelas chatas chegou bem na hora em que você ligou o carro.”

Você tem vontade de dizer que o único chato que você conhece é ele, mas acha melhor não ser antipático:

“Foi. Foi assim mesmo. Acertou. Eu estava saindo, já, e…”

“Não diz, não diz. Me deixa adivinhar. Você estava saindo e aí apareceu a Sueli e ficou te empatando.”

Você gostaria de ter todo o seu tempo empatado pela Sueli e pelos seus olhos verdes, e daria carona a ela e a eles, mas não diz isso. Você enrola:

“Não foi a Sueli, foi a…”

“Espera, não diz. Me dá mais uma chance. Foi a Kelly.”

“A Kelly está na Itália, na feira do livro, esqueceu? Foi a Tonica.”

“Ah, por que você falou? Eu ia dizer. Estava aqui na ponta da língua. A Tonica.”

Você quase vê a Tonica nos lábios dele, que agora pergunta:

“E aí?”

“E aí o quê?”

“A Tonica. O que ela queria? Você começa a contar uma coisa e não termina.”

Você agora já está gostando da brincadeira de enganar o chato:

“A Tonica me pediu para…”

“Para avisar que o meu romance foi aprovado.”

“Não, ela não disse nada.”

“Ela já está com o meu livro lá três meses.”

Ele parece resignado e agora olha para você com desdém, como se você jamais pudesse levar uma notícia importante a alguém. Sente-se no direito de cobrar alguma coisa, pela decepção:

“Enquanto eu não começar a minha carreira de romancista, vou precisar ganhar algum dinheiro. Não tem nenhuma vaga de blogueiro lá na revista?”

“Tem mais blogueiro que espaço”, você responde.

“Me conte aqui, como você conseguiu aquela boca?”

“Bom, eu tenho alguns amigos velhos lá e…”

“Não precisa dizer mais nada. Pela qualidade dos seus textos, só tendo amigos lá dentro, mesmo.”

Você fica vermelho de raiva:

“Olha, eu quero…”

“Você pode até querer, mas eu não vou para nenhum desses lugares para os quais você está pensando em me mandar.”