A cotação do amor anda em baixa. Não é novidade. O que intriga é que, como se diz, ela ainda não tenha chegado ao fundo do poço. O amor é uma daquelas piadas bem antigas, das quais rimos por educação ou para não passarmos recibo sobre nosso desconhecimento histórico.

Quem ousa, em uma reunião qualquer, dizer que está amando? Isso soaria assim: olha, gente, era uma vez um papagaio doido por sexo que…

O amor hoje é uma palavra da qual, antes de pronunciá-la, é preciso soprar o pó. Dizer amor é quase como dizer espartilho, polaina, ceroula, galocha. São coisas de que todos já ouvimos falar, ainda que não nos lembremos bem do seu significado.

Admitir que se tem amor por um gato, por um cãozinho, por um hamster chamado Zezinho não é pecado. Longe disso. Mas o amor entendido como troca de afeto entre seres humanos é inconfessável. Se queremos que riam de nós, e até zombem, é fácil. É só confessar o amor e esperar as gargalhadas que merece nosso talento cômico.

O amor já foi o mais sério de todos os sentimentos. Agora é diferente. Basta dizermos estar sob o domínio dele para que venha a pergunta: “É brincadeira sua, não é?” E nos olhos arregalados de quem nos faz a pergunta vemos imediatamente outra: “Como pode acontecer isso em 2016?”

Neste nosso tempo, o das redes sociais, contar nosso desvio amoroso a um amigo, e pedir-lhe conselho, é cair em desgraça pública. No dia seguinte já estamos recebendo centenas de sugestões, que podem ser resumidas numa só: sai dessa, panaca.

Sempre alguém, no embalo punitivo, resolve postar um desenho que todos, menos nós, acham hilariante: um esqueleto com um chapéu e um violão, fazendo serenata diante de uma casa cheia de janelas, todas fechadas.

Felizmente, a perseguição dura pouco. Não mais que dois dias. Logo surge na rede alguém mais ridículo do que nós e ufa!, somos absolvidos.

Aí, claro, prometemos a nós mesmos nunca mais falar de amor. Como disse alguém num dos comentários, amor e dom Pedro são coisas de museu. Mas de vez em quando ainda nos dói lembrar que ninguém nos mandou uma mensagem de apoio.

Custava alguém ter dito que para ele, também, o amor não é tão abominável? Não poderia ao menos uma santa alma sugerir um encontro, em que pudéssemos tratar do assunto diante de uns pãezinhos de queijo e de um café?

Com todos os diabos, para que serve o in box?