Imagem: Pixabay

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Há muito tempo ela não vem a esta pracinha, igual a tantas do interior. Anos. Na última vez, estava sentada naquele banquinho (ou naquele outro ali?) com os dedos entre as mãos de João Luís, um namoradinho de infância. Os dois tinham dezesseis anos naquela tarde em que se despediam. Ela ia morar no Sul, porque o pai fora transferido para outra loja da empresa onde trabalhava.

Ela e João Luís nunca haviam trocado mais do que beijinhos no rosto, mas nesse dia, depois de acertarem o pacto de nunca se casarem, a não ser um com o outro, ele disse que precisariam formalizar aquilo com um beijo de verdade.

Desajeitados, colaram os lábios numa aflição que durou vinte segundos e, quando voltaram à tona do mundo, ele, com os olhos úmidos, sussurrou:

“Vou te amar sempre, Maria Clara. Sempre.”

Ela, também com os olhos úmidos, concordou: sempre.

Ela se mudou, e o pai foi sendo transferido de cidade para cidade, embrenhando-se com a família cada vez mais no Sul. De vez em quando chegavam, do lugarejo onde João Luís tinha ficado, notícias vagas, sobre gente que ia se apagando da memória de Maria Clara. Uma dessas notícias dava conta do provável casamento de João Luís e de sua mudança para a capital. Maria Clara esforçou-se para se comover e indignar-se com o rompimento do pacto, mas logo esqueceu.

Amanhã, casa-se uma prima dela, e Maria Clara, escolhida como madrinha, está de volta à cidadezinha de sua infância. Quer rever alguns lugares. Já foi à velha escola, à igreja, e agora, na pracinha, tenta resgatar a lembrança do dia em que se despediu de João Luís.

Um homem vem capengando na direção dela. Parece um daqueles mendigos de outrora. Os olhos dele são azulíssimos, como os de João Luís. Ela aperta o braço de Roberto, o marido. “Vamos embora.” Roberto pergunta se ela está se sentindo bem, ela diz que sim, e começam a andar para a saída da pracinha.

Maria Clara se pergunta se chegou a ouvir, alguma vez, ou se é fantasia dela, que João Luís, participando de um rodeio em Barretos, tinha sofrido um acidente grave, e se a prima havia escrito que ele vivia dizendo que, quando juntasse um dinheiro, iria pedir o endereço dela.  Continuava a confiar no pacto.

Isso há quanto tempo? Maria Clara não se lembra bem. Doze, talvez quinze anos.